Poesis Publica

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POESIS PUBLICA
Beatriz Seabra
farol de deus farol de muitos como pão para a boca pela infinita sede do mar


livre para outros estágios

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em sucessivos estouros, a terra avisa que se quer renovar. a meio do dia, o calor abafa as respirações, só perto do mar a brisa nos alivia do sufoco. o ano avisa-se cruel, e mais podemos esperar. o ar começou a manchar os corpos como se no espeto estivessem à espera. temem as cheias e as viagens, as ilhas e mesmo o mar. agarrados ao ritmo e às responsabilidades, voltamos à labuta. a ver se passa, mas não. podemos esperar. que escapemos à nossa ira de deus, ou que talvez o caminho para as nossas casas, agora limpo pelo fogo, seja de curta distância, até lá, longe, de onde vimos e para onde queremos voltar.
o fogo cumpriu a remoção das almas errantes. o céu, agora mais leve, está livre para outros estágios.


de novo a subida aos céus

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horizonte limpo

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se o espelho não me reflectisse, se finalmente me integrasse no todo, despojada, sem forma, nem cor nem luz, sem matéria, ou noutra matéria que não a visível para nós, seria livre...


leikeitio

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no espelho vejo-me entre o céu e o mar. ao espelho, vejo que estou no meio, onde nunca me quis colocar.


estrato

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nas camadas mais altas, nas esferas que nos sobrepõem sucessivamente, outros como nós, representados por estrelas, em forma de moléculas, velam pelos desenhos que os nossos passos traçam. dão-nos alento para respirar fundo e melhor, dão-nos ânimo para esquecermos as falhas. mas só até ao dia em que finalmente, nos confrontarem. por agora, estão só a ver até que ponto nos pisamos uns aos outros, até que ponto nos nivelamos, ou por falsa consciência, nos destacamos dos demais. para chegarmos, pelo menos, às camadas mais limpas das nuvens, que não se façam escadas de homens, a dar as costas como degraus, quando facilmente dariam o ombro. são apenas nuvens limpas e como tudo, são apenas também, passagem. subam antes pelo voo. poderão chegar a estratos mais elevados, senão, se apenas ficarem pela limite inferior, e pisarem as costas de muitos, surpreendentemente vos puxarão para baixo.



por um momento, sorriu e pensou que seria bom, sentar-se na esplanada, ver a noite e as estrelas, porque não. para logo depois sentir o habitual sinal no interior do peito, quando o que vem por aí, não é puro. optou por ir ver o rio, escuro a reflectir o luar, sombra dos peixes. desceu o passeio com o pé pesado a pousar no chão, o frio dos ossos a latir pelo corpo acima, cristalizou a mente no tempo. uma lâmina de aço uniu a testa ao outro pé, obrigando-o a descer. Com os pés dentro de uma base de gelo, e sem autonomia, atravessou a rua, lentamente, a firmar cada passo no paralelo até alcançar o piso liso da betonilha. a cruzeta que lhe segurava os ombros e alteava a coluna, estava ligada ao céu. o ar fresco à volta do pescoço dizia-lhe que sim. que a sombra dos peixes era bonita de se ver à noite, e a luz que iluminava o passeio ofuscava os olhos. o chão inclinou-se para a margem, soltou os pés dos socos para os arrejar sobre a água do rio. a esplanada longe, sem se ver, apenas as luzes a iluminar as paredes de granito, e os arbustos a reflectir o ouro do prémio a anunciar. o seio pesa-me e doi. sem poder atravessar o oceano, pendo de novo para a rama como a querer evaporar. terá de se habituar a esta presença.


ar fresco

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depois de ter visto o documentário sobre mulheres e prostituição no Irão, nas curtas de Vila do Conde, só consigo desejar que uma mega bomba dizime radicalmente aquela gente. só assim terminaria a miséria humana que por lá vai. e talvez, depois, se fizesse luz. como a que senti no Clube Literário do Porto, lufada de ar fresco depois de uma projecção daquelas. a visitar.
A História da Sexualidade encerra com a seguinte frase inusitada: “Temos de pensar que um dia, talvez, numa outra economia dos corpos e dos prazeres, deixará de se compreender como...foi possível submeter-nos à austera monarquia do sexo.[1]
[1] Foucault, em,Yurgen Habermas, O discurso filosófico da modernidade, Edições Dom Quixote, 2000


de volta à distância

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não sei se me negaste por dever se por prazer. a mulher que vem limpar o chão e recolher o lixo todos os dias diz que me vais dizer que tenho razão. temo que seja tarde. que venhas quando já não queira. ou que já não sinta em profundidade. talvez seja esse o fito. encarar o retorno com leveza. prefiro imaginar que me vão recolher num grande chapéu branco. que me levam a voar e a exercer a minha liberdade. queria ir para longe. gozar o corpo como não queres que o faça. como se não o fizesse em espírito. hoje, surpreendeste-me. a distância que guardo em relação a tudo foi quebrada, conseguiste fazer correr umas lágrimas minhas, por sentir que te via finalmente homem, a cantar para mim como uma declaração de amor. se chorei foi porque senti ser verdade. mais claro, de cabelos compridos confessas-te querer ser o que não és e identificaste-me como sendo tua. não sei se havia mais alguém em palco, sei que os instrumentos tocavam pela tua vontade. apesar das lágrimas recolhi-me como sempre, de novo de volta à distância, e ao sono.



à mesa para ele eu era aquela que no filme o abandona depois de tão intensa paixão, por outro que abriu caminho. para ele eu era leve e livre. ficou a vê-la partir a saber que a teria de volta. a falarem no pensamento que se voltariam a ver, dali por muito tempo. no presente já apenas lhe interessava o amor mesmo sabendo que não o alcançaria. vedaram-lhe o acesso, fecharam-lhe a porta, como a tantos outros. lembrava os ritmos do kusturica enquanto desenfreadamente saltou à corda. passou o tempo a actuar e a entreter as pessoas para esquecer que mesmo que saltasse o muro do outro lado não teria chão. Adorava as danças clássicas, e essas apenas dançava com mulheres. era lindo. de cabelos lisos e pretos. os olhos perigosos rendiam qualquer observador. pedi-lhe que colocasse os óculos. mas não sabia que deus lhe tinha dado aquela arma. elegantíssimo vestiu as calças que o trouxeram à minha presença e levou o casaco verde água que comentei. surpreendia-nos com as vozes que fazia a testar os nossos reflexos. galvanizado a querer saber onde vivia. a medo de ser falado consciente de que havia pisado uma flor. sentiu o meu peso quando me viu. as cores muito claras avivaram-lhe a memória a reconhecer dignidade. falamos de tudo como a resolver. com maturidade. como deve ser. no verão em bilbao, a tia que insultara por amor. a outra mãe que teve. levou-nos a conhecer o esperanto entre gente boa baseada nos anos sessenta com medo de ver que tudo vai ser pior do que o esperado e que o esperanto agora é o inglês. mais belo por perto do que no ecrã revia-o a publicitar para as mulheres. um animador sentido como o beijo que me lançaste no voo. a superar tudo o que de pior nos pode ter acontecido.


...sobre música.....

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fui solicitada pelo Vitor a responder a um dos questionários que circulam na blogosfera. 1) tamanho total dos arquivos no meu computador? cerca de 16 GB. 2) último cd que comprei: The Orlando consort: Food, Wine & songs, music and feasting in Renaissance Europe. 3) tema que estou a escutar agora: Archive: Le Mans. 4) cinco canções (impossível! 8...) que ouço frequentemente ou que têm algum significado para mim: Adriana Calcanhoto: Morro dois irmãos + Mentiras. this mortal coil : Song to the Siren + Dreams made Flesh. Maria João e Mário Laginha: Beatriz. Alpha: Somewhere not here. Sahara Blue, Hector Zazou: Lettre au Directeur des Messageries Maritimes. deus: Theme from turnpike. Tindersticks: My oblivion. Bjork: Desired constellation. 5) lanço o testemunho a outros cinco bloggers: Charlotte, Frosado, José Alexandre Ramos, Mário Azevedo , Andreia e boas sínteses.


despojados de si

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os grandes estão todos a partir. vitoriosos e limpos, ou não, libertaram-se destes corpos. livraram-se do que por aí há-de vir. serão certamente de novo timoneiros de uma terra madura. irão avaliar a convulsão do planeta durante as horas de voo. talvez voltem com mais determinação e da próxima vez não deixem a serpente negra cruzar-se nos caminhos que traçarem. ou talvez queiram apenas passar discretamente por aqui, como tantos outros que nos observam, anónimos mas felizes. limpos e maduros, agora com direito a casa e a ser maça, agora com direito à consciência certamente o plano que somos será reforçado por estes pensadores agora mais puros e despojados de si.


a luz do fundo

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pensou que lhe fosse pesar na alma se ripostasse. mas não. sentiu-se leve e aliviado. como se o tivesse de fazer. como quando mané foi ao cimo do monte gritar o mais alto que pudesse e insultar ao vento aqueles que o enxovalharam. por apenas não articular bem os maxilares e as palavras não soarem bem aos ouvidos. e foi. foi ao cimo do monte para se aliviar mesmo correndo o risco de desmerecer as suas características particulares. mesmo sabendo que estaria a dizer apenas meias verdades. precisou de injuriar quem lhe cobiçou a virgindade, a sensualidade e a inocência. ainda assim chegou onde nunca pensou. que se manifestasse desta forma. correcta. consciente de que houve um abuso de poder por saber estar assegurado um destino. narciso voltou do monte para o ego. agora, leve e aliviado conseguiu prosseguir caminho e cumprir o seu dever. na aldeia todos aguardaram a sua passagem pela praça depois de ouvirem o eco das suas palavras. ao descer o monte formou-se uma rua de pessoas para o ver passar por um tubo estreito escuro e frio. fitou a luz do fundo e continuou na esperança de surgir noutro contexto. ou simplesmente partir. pelo outro lado do bosque. talvez na noite o levassem de vez.


a rigor

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designaste por vento a palavra que a tua mão insiste em escrever, tão quieta e calada, surpreendida por esse nome de código. o vento que julgas que te quer enlouquecer. quando afinal o vento é calmaria e nunca te rodeou em reboliço nem nunca te mostrou a porta que procuras. negaram-te o acesso para que aprendas a respeitar o caminho que veda. das últimas vezes que o fizeste, manchaste-o de sangue. não chores mais pela porta que não vais ter se o nojo te impede. não sonhes com a última vez que me verás. essa vez não existe. não digas que és dejecto quando exiges vassalagem. não digas alexandre como o maior se hesitas. não digas que deus é cristo. não digas cristo porque o cruxificas. quando afinal deus era o cosmos e tu não sabias o que escrevias. não digas que te deram a diferença quando não a aceitaste, a negaste e enganaste os amigos. não digas que os outros é que têm que aceitar. sem primeiro aceitares tu. que não sabes porquê. ou que adivinhas mas não queres ver. as grandes maldades que todos já cometemos, as tuas maiores ainda. não te faças são perante aqueles que cegas quando ardes de revolta. porque é revoltado que te vejo na alma quando me vens falar de noite. porque é dedicado que te vejo na alma quando me vens mostrar de noite as descobertas que queres partilhar comigo. não queiras mais saber porquê. cumpre a tua missão e esquece-me. nesta vida cada um para o seu lado. porque a verdade, a rigor. só no fim.


no piso de terra batida

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lamentou que nunca a tivesse premiado com palavras sobre o seu futuro tal como o fez por ele. e por lamentar, de noite enquanto lia as lombadas magnet percorria os corredores, entre os livros, a chamar por isis, à espreita, pois sabia onde ela estava, mas sem se mostrar, só para que o ouvisse e o sentisse a chamar por si. e eu a ver o que costumava ele fazer. passava os dias naquele lamento. passava os dias assim. mas quando lhe surgiu, virou costas achando audaciosa a sua presença e a reprovar a sua teimosia. repeliu-a. isis propos-lhe a paz que aceitou com um abraço e sem deixar de dizer que algo que jamais alguém imaginou isis ía ter. como se fosse por isso que lhe virou as costas. como se fosse muito importante. e sorriu para logo depois sério dizer que toda a gente pensava que ainda eram companheiros, mas que não, apenas eram amigos, já há algum tempo. e eu a ver isis ao longe atenta a esta conversa, de cabelos mais claros mais calma a pontuar o horizonte. e no piso de terra batida voltei à realidade.


como quando faz gabriel

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de olhos fechados a elevar a mente no voo até ao corpo de deus o espaço está cada vez mais branco a antever que esse cenário de luz seja preenchido pelos mensageiros e que finalmente se mostrem nas diversas formas que para si adoptaram. há que ver. o espírito fora do corpo, fluído a exercitar-se livremente, onde os movimentos de permeio não têm lugar e apenas os movimentos concretos acontecem. a visão total a permitir ver o cenário de costas, assim como a tua mão. aquilo foi o abraço, o aperto que não foi possível antes de partir. agora, finalmente despedidas, querida beatriz, desejas seguir o teu caminho. encontrastes pessoas boas, integras e dignas que te iluminaram a mente e deram a conhecer o outro lado. vais conhecer os anjos e o futuro, a tua história e o todo que és. vais ver o teu filme maior e planear o próximo. escolhe bem e compensa-te. da solidão, das más palavras. rodeia-te de copas, e protege-te na tua sabedoria. agora sem medo e vergonha o que virá será certamente maior. depois, sempre que o permitirem bafeja-me com o teu sopro fresco e o teu perfume. talvez me ajude a acalmar. como quando faz gabriel.


já não acredito no depois

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cada um no seu canto à espera que o outro aparecesse. a olhar a abertura entre as cortinas na esperança de que tudo se resolvesse no início. foi assim que se fez o presente. sem agir. e deprimidos ficamos quando quem nos bateu à porta foi rafael e o anjo negro para nos acompanharem no caminho. sabiamos que a ilha ficava longe e que não a alcançariamos. mesmo assim aceitamos as suas companhias, as suas histórias as suas correntes presas a nós. o anjo negro está livre, foi solto e aliviado. rafael não. tem de cumprir a sua pena e continua preso à corrente, até ao fim. porque a ilha continua longe. a dor no centro do peito já não se manifesta. a ferida que os vértices da lua rasgaram fundiu-se na carne sã. já não acredito no depois. se vier, irei encará-lo como novo. vejo a planície americana no horizonte. a vontade de molhar os pés no oceano que desconheço. que seja aceite esta vontade e que vá visitar o condado das estrelas no escuro da noite. até lá, o antes será apagado durante o voo.


lekton

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um novo blogue de leitura partilhada, fundamentalmente dedicado aos autores clássicos inicia actividade com "A República" de Platão em LEKTON. porque as raízes da cultura estão naquelas obras chamadas clássicas, obras cuja mensagem não se esgotou e que permanecem fontes vivas do progresso humano.


onde o sol é um violino dourado

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lá, onde o sol é um violino dourado que irradia música no tempo todo, onde os dias são sempre noite e as construções de cristal colorido e branco, onde as criaturas navegam no espaço numas máquinas, já envelhecidas que chiam e reclamam por repouso, na gravidade zero, o povo solicitou a presença de beatriz. sabia que ia ficar presa num cardinal e ao procurar inspiração no pano inteligente onde iria ser projectada, e porque quis silenciar os ouvidos, descobriu que afinal o povo tinha música para dar aos visitantes, sempre amáveis e hospitaleiros, como convém, apesar das mulheres serem distraídas pelos ares dos ventos vindos do norte, e pela luz do sol espelhada na ondulação do mar que lhes levanta as pupilas dos olhos, em polpa humedecida de encanto. e porque gostavam de observar as sombras dos passos dos caminhantes, já estavam muito habituados a fazer aquelas viagens nocturnas nas máquinas voadoras, velhinhas de cansaço, em busca de outros que como eles se transformavam numa outra espécie, mais pequena, talvez parecida com as nossas crianças, mas que confiavam porque viviam sempre numa atmosfera própria de bem querer. e comiam doces pelo caminho, enquanto observavam as estrelas, e quando se aproximavam dos planetas, onde iam repescar outros como eles, podiam observar as almas jovens pousadas nas nuvens a quem acenavam um sorriso pelo cruzamento. estacionaram a cambalear, a máquina voadora que tinha algumas frestas de corrente de ar, no jardim de beatriz. entrou na máquina, onde já lá estavam outros seres daquela espécie a quem perguntou se gostavam de fazer estas viagens pois pareciam já habituados a conhecer outros mundos. o condutor, que levava um chapéu de pala, deu-lhe um doce para a mão e todos lhe responderam que sim, que era divertido e ia gostar. e lá foram a percorrer o espaço ao lado das estrelas até chegar ao planeta onde o sol é um violino dourado que reluz música o tempo todo.
texto editado n´o povo é bom tipo em março de 2005. na sequência do post anterior não podia deixar de referir este blog amigo.


sobre livros

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A pedido da Rosa Dart do marketing Axiológico, aqui estou eu a quebrar o registo de comunicação habitual do poesis pública para dar resposta a esta curiosidade:
não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser? o meu. gostaria de ver esta minha vida em livro. mais do que em livro, em filme. gostaria de ver o filme da minha vida.
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por uma personagem de ficção? Não. Mas fascina-me e identifico-me com a personagem Orlando de Virgínia Woolf.
A última tentação de cristo, de Nikos Kazantzakis, também traçou uma marca.
Qual foi o último livro que compraste? 1000 symbols - what shapes mean in art & myth, Rowena & Rupert Shepherd, ed. Thames & Hudson.
um outro livro sobre pintura, desde a idade média aos dias de hoje, e outro sobre brughel também, mas não os tenho à mão, não os posso identificar. e um livro em formato cd, também sobre a alimentação neste período da história e músicas da época. uma delícia...
Qual o último livro que leste? Flandrin, J. L., Montanari, M., História da Alimentação, 2. Da Idade Média aos tempos actuais, ed. Terramar, Lisboa, 2001.
Damásio, António, Ao Encontro de Espinosa, ed. Publicações Europa-América, Mem Martins, 2003. adoro António Damásio.
entre outros, porque leio sempre vários livros ao mesmo tempo, li também O elogia da loucura, de Erasmus, a Utopia, de Tomaz Morus, peguei na gaia ciência do Nietzsche....
Que livros estás a ler? estou a ler muitos. Stuart Pugh, Total Design; Christopher Lorenz, A dimensão do design; Matéria da Invenção, do Centro Português de design; Lovelock, James, Gaia, um novo olhar sobre a vida na terra, edições 70, 2001; Hanna Arendt, A condição humana; Dorfles, Gillo, As Oscilações do Gosto, ed. Livros Horizonte, Lisboa, 2001, Platão, A República, ed. Calouste Gulbenkian; Daniel J. Boorstin, Os Criadores, Uma história dos heróis da imaginação, ed. Gradiva, Lisboa, 2002; Ulrich, Eppinger, Product Design and Development ...estou a finalizar a tese de mestrado, ando com os livros todos atrás de mim!
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Orlando de Virgínia Woolf. A Condição Humana de Hannah Arendt.(para terminar a leitura)...que quando comecei a ler parecia que tinha sido escrito nos dias de hoje! Eaton, Ruth, Ideal Cities, Utopianism and the (Un)Built Environment, Thames & Hudson, 2002.para o caso de ter de organizar um aglomerado populacional, quiça uma tribo, talvez ande por lá um índio perdido.... Habermas, Yurgen, O discurso filosófico da modernidade, Ed. Dom Quixote, Lisboa, 2000. para não perder a lucidez...caso fosse necessário modernizar algo...
um livro em branco para poder escrever. e uma máquina fotográfica, digital...um portátil a energia solar.
Eco, U., Os limites da interpretação, Difel, Lisboa, 1992. é um nó mas é muito interessante.
todos os livros do António Damásio e Marc Augé...para não perder de vista os valores.
Monografia do Peter Zumthor, para me inspirar ao fazer a cabana lá na ilha...
um livro de provérbios, anedotas...para me rir, enquanto o índio não aparecesse!
e levava outros mais, ou então uma verdadeira biblioteca digital no portátil...
A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê? Vou solicitar a colaboração do A.G. do de génese, a ver se ele nos deixa fazer comentários no seu blog, para a Charlotte do Jardim d´Inverno que tem um espaço muito fresco nesta malha urbana internética e para o José Alexandre Ramos do que farei quando tudo arde que escreve cheio de transparência. Conto convosco. Já agora vou solicitar também o Mário Azevedo do rotação difusa, talvez pegue.
Obrigada Rosa pelo link nesta brincadeira.


à memória dos seios da mãe

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à memória dos seios da mãe na extremidade dos lábios juntaram-se as línguas de diospiros humidas de não querer largar. do fruto, o gosto do leite, o abraço de cheiro suave, o rosto belo e triste. do que se exige das mães muito haveria para contar. não sabem que filhos esperam mas já os amam na condição de mãe, desconhecendo a história conjunta, mesmo não sabendo porquê, e por isso algumas, divergem em sentimentos que querem compreender. são levadas a amar aqueles que já as odiaram, a sobrepor o amor, sempre o amor, acima de tudo o amor. as mães sofrem por nós, mas também se satisfazem com o sofrimento que nos aprimora. e aqui está a vitória delas sobre nós. é sobre as suas saias que nos rendemos, é sobre os nossos olhos que esquecem a raiva. e amam-se as mães como se transporta um peso no peito que nos esforça a carne e dilata os ossos, como quando nos dão colo, e lhes deformamos o corpo. queremos sempre ter o amor de mãe como certo. indizível, é no silêncio que mais se manifesta, como se não fosse possível revelar a profundidade onde se guarda e de onde se pretende a ficar. sobre as mães o silêncio fala mais fundo.


num fundo branco em sombra

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e daqueles que não falam de dia, porque não querem, não podem ou porque a vida não deixa, vejo-os de noite a desabafar. surgem num fundo branco em sombra, e confessam-se. aquele que costumava atravessar o rio a nado todos os dias, para na outra margem poder ver isis, sua pretensão, mas que de tanto nadar perdeu as forças, para que finalmente visse que o seu amor estava na margem de onde sempre partira, surgiu sentado no ar, de costas mudas. beatriz via-o lançar-se na água e culpava isis por o chamar. isis gostava de falar com ele, quando se encontrava manso, sabia que se largaria dela, mesmo que não quisesse. Isis era o espelho de narciso, que na verdade nunca a amou, apenas gostava de se rever, e por isso atravessava o rio a nado todos os dias. narciso sentado rendido, sem falar nem pensar, esperou que isis lhe apertasse a mão para lhe dizer, eu sei que somos companheiros, mas não somos os nossos. beatriz e isis atravessavam o rio a levitar quando queriam estar juntas. entretidas a conversar lá iam concluindo que estavam todos de castigo nestas vidas. beatriz tinha muita pena de magnet. de noite, magnet surgiu no fundo branco cinza, com a alma exposta, revoltada como de dia não se vê, a dizer em pensamento que nunca gostou de narciso e que sabe que ele lhe enche as costas de palavras que não quer que veja. no mesmo fundo branco em sombra, surgiu também o anjo negro a dizer que ía ter de me dar a lista do seu edredon, agora que tinha os ciclos controlados, numa conversa híbrida de várias personagens. disse qualquer coisa, apenas para matar saudade. por fim, a ave que tudo vê de cima, mas que sabe voar entre os humanos e ter por eles amor, num corpo de homem digno, daqueles que já não se fazem, veio dizer que quando ela morreu, depois, levaram-me tudo. e que assim continuava apesar de ter voltado a sorrir e não se poder queixar. e assim passam as noites. a ouvir os que me querem falar.


era só o que precisava ouvir

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um banho doce de açucar regado com caramelo e chocolate. eu quero fugir contigo. depois, talvez seja possível caminharmos juntos. gostaria apenas de poder ver-te brilhar, a cegar-me, sem mais penas a pesar. apenas quero fugir contigo. quando morrer. fugir daqui a correr para ir ter contigo. juntos. talvez naqueles tempos, em que irás à minha frente, e ficarei por cá, talvez nesses tempos haja plenitude. o fogo de artifício no fim da vida. o mar de sangue que já não embala o tormento. o corpo que já não beija os dedos da mão. a estrela no monte da vocação a brilhar e a reluzir. a mulher de armas que desceu a inspirar força e coragem a receber-me no espaço. diz-me para não temer. nada. a arder no fogo e a dizer para não temer nada. revolucionária a arder e a não temer. era só o que precisava ouvir.


no colectivo

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o reino vai cair. alguém rosna lá em cima. ou talvez, apenas esteja disfarçado. preto ou branco, de repente parece ser fundamental para a queda. que não falemos com quem não nos acredita, que o raciocínio seja o leme, que o amor esteja em tudo o que se faz, que não seja dado espaço para a intervenção errada. que esperemos pelo fim e saibamos descansar a alma nas nuvens e assim prepará-la para ver o filme da vida. os pensamentos a passar à frente dos olhos, as imagens as palavras. a consciência. e que haja coragem para ver as grandes maldades que já fizemos. e que nos fazem sofrer. no espaço, céu das almas luminosas. a luzir no espaço que vemos à noite, longe, muito longe e tão perto de nós. é a queda que nos eleva a alma. é ela quem nos esvasia. no desapego, no despreendimento. é só como sabemos crescer. na dor. na ofensa às feridas que carregamos. nas imagens que nos fragmentam. na noite, os dois triângulos circunscritos e invertidos, desenhados a traço branco sobre fundo preto, estáticos, movimentaram a alma de isis. giraram em sentidos opostos e mostraram-lhe imagens complexas dificeis de deslaçar umas das outras. estavam por demais entrelaçadas. o tempo para as limpar é longo. os luminosos estão habituados a descer em nosso auxílio. eles sabem desenvolver a queda, as deles e as nossas. ninguém melhor do que eles para nos fazer quedar. no colectivo. isis quer por demais cair, por fim. isis quer por demais ser isis. finalmente isis. hoje os triângulos carregam àgua. mais pesados procuram a ligação à terra para nela poderem rodar e pousar a base. apontar o vértice oposto, ao espaço.



confesso que sinto alívio por não ter de te receber no corpo com demasiada frequência. confesso que nunca seria demais. abeirado, falava da memória de imagens de nomes de prémios, e da irmã. deu-me tudo o que tinha. voei sobre paris como se asas tivesse e por entre o nevoeiro avistei a torre eiffel a pontuar o sena. as fachadas constantes a traçar muros, canais do meu movimento. siena era a cor deste registo, não. era em tons de cinza. na volta, depois de retomar o chão, no u formado pelas paredes brancas em torno da árvore, fingiram não entender as coisas, e foram a repetir o passeio do pintor, quando se quis livrar de wally, tapando-a com a vista de outras mulheres, alinhadas, umas atrás das outras em fila sem saber porquê, desinteressadas. nesta história wally chamava-se maggy, e sentaram-se os quatro nos bancos altos de estirador pousados no jardim. nessa noite, o poeta canalizou a ansiedade e a energia nervosa no que sabia fazer, fugir. no momento certo, a folha caiu da árvore. por baixo, lamas tinha um raio de luz, esfera branca que bem lhe ficava. os pés de cabra de maggy diziam tudo. no meio desta bestialidade ainda houve dignidade para diferir alguns beijos, algumas palavras de apreço. porque antes disso, houve a manifestação da luz verde água em círculo com raio duplo a apontar para a noite. atingido pelo trovão louco do pintor, estava a destratar as mulheres que lhe queriam bem. a família, promessa de uma vida nova, dentro de um fato macaco verde tropa. valentim observava o totalitarismo ácido do poeta. e as mulheres à volta sem poder de entrar. sem erro que o desacreditasse, de novo insistiu nos números. no fim a multidão sincronizada em ovação. mas apenas por lamas.


poesia não. prosa.

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a ler o diabo em confissão, no reino de magnet, de demónios e loucos, ao qual dava a volta em pouco tempo, instalou-se o preconceito, revelado na forma de letras em fundo negro, numa lista de nomes temida, como as listas de judeus que os nazis elaboraram, mas sem qualquer inportância no reino do céu. elaborou aquela lista, para se apoderar. não querendo que isis vivesse julgou que poderia encarcerá-la fechando todas as portas da torre alta que habitava de onde pensou nunca mais sair. e porque isis era dotada e corria o risco de existir em tempos de perigo, coisa que lhe atiçava a cobiça, mais raiva acumulou para materializar a imagem da sua opositora envolta em chamas a arder, apenas na sua mente, pois não suportava que alguém fosse mais amado do que ele. aquela imagem era a sua torre de babel. magnet era assim, de orgulho desmedido, preocupava-se com estas coisas. sempre deu demasiada importância ás potenciais capacidades de isis e de vez em quando revoltava-se com o facto dela existir. querendo vincar o acto, talvez até estigmatizar, abriu as portas das outras casas na muralha que cercava em todo o perimetro a torre onde a fechou. para que todos vissem que a havia encarcerado. julgou. no reino de magnet, brughel representava aqueles que passaram vidas a despertar ódios, gente de afecto frio, retratadas em corpos híbridos, característicos do mundo do meio, reino às avessas, a retrair a vida onde já toda a resistência é inútil. mas magnet esqueceu-se que isis voava. nunca suportou saber que foi ela quem determinou a sua vida, apesar de não concordar, mas por ser necessário, e certa vez lhe ter sussurrado ao ouvido, quando ele estava hesitante em começar um registo de escritor, poesia não, prosa. que tem capacidade para isso. e magnet, falso, a dizer, nós podiamos ser os melhores amigos. não somos porque não conseguimos ser.


no derrame das ideias

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na aldeia era hábito ir à taverna beber uns copos, fumar um cigarro. as proibições eram estimulantes e preocupado com o seu perfil irótico, deixou que lhe desenhassem as curvas da vida que ía ter. o hábito de beber já o incomodava mesmo assim deixou-se ir, para ver onde as curvas o iriam levar. e desinteressado por ele próprio, em desrespeito, a dar facadas transparentes no peito, sabendo que o assistiam, e ser de bom fabrico, atento, viu afinal que a vida é preciosa. e afinal o cansaço era só sintoma de tudo, e para quebrar a timidez, agora que estava limpo, e mais sério, e presente, foi por isso num dia normal levado a dar uma grande volta, na rádio e no divórcio, gatuno, gatuna, os gatos, os rapazes, eram todos gatos e nem toda a gente perdia o tempo todo. a meter respeito, era toda uma equipa lá em cima a trabalhar na sua preparação clássica, esteios de tranquilidade. e as vozes búlgaras a dizerem-lhe que sim, que podia cometer o risco, as flores na jarra, o ramo de folha de palmeira, as rosas e as margaridas, em juízo de saber. os olhos extasiados não se desviavam daquele caminho e no meio do teatro e daquela magia, carente, criou premiado, o círculo que no final do parágrafo lhe estava a dizer que a imagem hoje estava mais forte. no derrame das ideias, virado para o detalhe, se haveria de salvar, sabia que não podia perder um momento. não querendo histórias simples, montou o seu cavalo de ferro, vínculo portador, prestes a ver-lhe lançado um encantamento, desvanecido na neve do algodão doce onde agora dormia. livre pensou finalmente estar, ainda sem saber da volta maior que teria de dar se insistisse em esticar demais os espigões do cavalo de ferro, e deixasse de ouvir as flores e as vozes búlgaras, esteios da assistência que poderia vir a ter. henry ganhou tudo isto, e mais também as asas que lhe acariciavam as costas nos momentos de regozijo sempre que soube não comprar o bilhete dessa grande volta que nunca aspirou obter. talvez por isso tenha um dia procurado as palavras do homem vestido de branco, deleitado que estava com a descoberta de coisas da fé.


é a morte que vivo

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o homem de branco havia dito que o estado da humanidade não é muito positivo, que entre estes três mundos, o do meio por vezes pode ser um abismo. onde podemos vir a cair. é deste mundo do meio que não devemos ter medo de conhecer, com urgência pois os danos que em nós provoca, são grandes. o homem de branco esticou os braços pelo mundo, tentou unir os povos, desencadeou grandes ondas de comoção, sensibilizou muita gente, limou as suas arestas, e cometeu os seus erros. o homem vestido de branco remendou o tecido religioso da terra, assumindo os erros do catolicismo, determinado a evangelizar os perdidos na fé. a terra, magra precisa de alimento, dos ossos e das carnes daqueles que se lavaram e levaram nas suas convulsões. mancha laranja sobre a cabeça a arder. orgulho de deus levado a enterrar como todas as velas passíveis de acender. as mentes subiram em pirâmide aos gémeos no meio do céu. mas nesse mundo do meio, o tal que poderá ser um abismo, é onde na noite nos vejo, cegos pela cura da alma e a sua compreensão a não caber. onde podemos vir a cair e desencadear historias guardadas nos faróis de deus, daqueles que acordam debaixo da terra a julgar terem sido enterrados vivos, desesperados por acharem não poder dali sair, de espiritos que não têm mais como esconder a sua raiva que canalizam na maldade que nos infligem, ou que atordoados, por não estarem preparados para conhecer o mundo do meio, nos roubam a tranquilidade. alimentam as suas forças de raiva com a memória, até não poder mais, surgem em sombras cinzentas e negras a expiar as alegrias, e só quando sentem que não vale a pena viver na sombra, fertilizando a luz, irradiam as notas mais altas, já não humanas, e as cores, as cores são pintura, as texturas são luz e os cenários são perfeitos. e falam da memória e das imagens, desfocados pelo portal sentido nas entranhas, difuso pois se desvaneceu. é este mundo do meio a falha da humanidade, o hiato que devemos ocupar e conhecer. muito seria se um sorriso fosse a não responder secamente, num desenho vigoroso que enchesse os olhos como um pedal para a alma, acima de tudo, nunca em oposição. a morte é o sul que me orienta as costas. é a morte que vivo. difícil a fazer coisas como a ter. Um novo reinado, dizem os ventos muito bom virá, e de raça.



o sal na boca. a necessidade de respirar claro e contínuo a sobriedade da luz do movimento da água que a envolveu. e a frescura que libertou quando chegou à terra e apoiou o pé, branca outra vez para ver qual o estado das coisas atrás do véu, pó que se lançou e não deixou ver tudo. porque havia algo no meio, espaço quântico largo e curto, a fazer olhar para os lados como para o infinito. caiu na vertical pelo queixo abaixo, os olhos puxados para cima pela pele, o lago em frente, a água no meio o sal do mar, as pedras na língua a abrir os olhos, as folhas soltas, núcleo de arremesso a resgatar a lucidez. entrou naquele fogo. levaram-na a passear durante a noite, seguraram-lhe a mão que agarrou sem saber de quem quando já confiante percebeu que quem a guiava era cego e a tocava à procura de apoio, como para pousar os pés. branca, a atravessar o fogo caminhando sobre o sal que levou à boca, a multidão cega a travar-lhe o passo. nos olhos esferas negras e grandes a fugir dos espelhos. cegos a travar-lhe o passo. e o céu baixou os olhos e encarou o mar, espelho dos deuses porque não sabemos se haverá espelhos no céu, talvez só de imaginar. e nós, reflexo do que somos a estreitecer a distância entre os dois mundos, opostos em pirâmide, vértices fundidos para a passagem dos que fazem as viajens criando pontes e faróis de um mundo para o outro, só de imaginar, a fugir dos espelhos para não se verem nus nas marcas da pele deixadas nos corpos pelos golpes ofendidos à alma. e eles cegos a travar-lhe o passo. o céu com vergonha de olhar o espelho do mar, e eles, lá sem vergonha, a julgar reflectir o céu. branca de novo fechou aquele fogo nas mãos cobertas de sal, agora mergulhadas no mar a lavar o espelho do céu.


variação de escala

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à volta da mesa, e porque os cereais vieram substituir a carne, não fosse o homem ficar mais forte do que devia, instalaram-se os frutos, mesmo assim, depois dos legumes terem seduzido os europeus, com os seus desenhos e sabores, e outra postura perante o intelecto, tudo se aprende a ler, até que o forno mais usual e comum daqueles tempos tem as mesmas dimensões que os de hoje, não em rectângulo mas em círculo, é tudo o mesmo, até os animais são os mesmos, não isso não que sabiam melhor apesar da carne ser mais dura, os vegetarianos que não se ofendam com isto que eu pra lá caminho, mas o que é certo é que os frutos enriqueceram os jardins e os jardineiros e os projectos estenderam-se para lá das paredes, e os pomares ao longo dos eixos lá se desenvolviam a libertar odores de fechar os olhos e inspirar sofregamente os limões e as laranjas nas árvores e nós a tomá-los no regaço em sombra da luz cozidos pelo sol, frutos iluminados doces apetecíveis, descascados religiosamente, cascas vazias espaços novos da imaginação, deitada no interior da laranja em repouso, miniatura de significado profundo meu, posse do fruto já sem a acidez das memórias do desrespeito das personificações perdidas, afinal libertas sem saber ou por não querer. à volta da mesa as flores, nas taças, nas jarras, na toalha, nos cabelos, nos vestidos, nas velas, nos olhos, nas bocas, à volta da mesa tudo, e pela janela nas formas do arvoredo que reveste o monte o homem que desconheço e sorri da variação de escala possível destas coisas.


só cada vez mais alto

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voo para longe muito longe de tudo. lamento as almas que não ascendem ao céu, como lamento, e que se manifestam de forma obstinada e insubmissa. devem-nos respeito. deviam ocupar-se apenas de si mesmas. mas não. tomam-nos de assalto por momentos, loucas e cegas, dizem. rosnam-se em nós, dão-nos os seus tiques por momentos, libertam os seus cheiros, comem nas nossas bocas, julgam que sim, usam os nossos corpos, falam em nós, e se tardam poderão ficar sem forma, mancha negra que paira suspensa e se multiplica nas tardes de verão acima de nós. ai se as vissemos. deus guarda-nos nesta cegueira. não sei se bem se mal. estamos todos sujeitos a não saber morrer e ascender quando chegar a hora. e se teimarmos em não querer saber poderemos ver-nos surgir nos mundos onde não se vê o céu e tudo é catacumba submersa debaixo de terra, corredores de dor, e nós lá irrascíveis e inquebráveis, desnecessariamente. nascemos para nos civilizarmos, porque quando soltos do corpo, somos rebeldes, muito rebeldes e insubmissos. quando afinal somos apenas efémeros apesar de temporariamente nos darem aparente autonomia, afinal dependente. de nada valerá conter-se numa existência mansa quando na verdade se arde de revolta e insubmissão e desreipeito por outros. que a mansidão seja genuína verdade e não raiva submersa, por vezes desconhecida que nos possa tomar de repente. voo para longe o mais alto possível talvez no cimo de uma montanha mas não sei se será suficiente o ar fresco da montanha para espiritualizar a mente, já não basta. só cada vez mais alto.


e eu no ouvido interno a dizer-lhe

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e desejou colocar esta coisa que os prendia no fundo do oceano. diluí-la entre os peixes. ínfima nada poderia corromper. meu amor, minha dor, ácido corrosivo que me furas a pedra a arder de cura. apenas queria dizer-lhe como o amava e como precisava da sua companhia. apenas precisava de o dizer numa atitude disrruptiva senão tudo se poderia tornar num inferno. mostrou-lhe a praça ampla e larga, a construção em volta baixa e modesta. o coreto vazio tornava a música ausente. a água faltava, ou porque o mar não banhava a areia ou porque não era necessária à melhor preparação dos alimentos. a terra poderia secar, era um risco. mesmo assim preferia tê-lo por perto por companhia, fosse como fosse. mas não podia ser. um amor assim é bom de viver, apesar das noites serem vazias e os dias por vezes como gritos do inferno. que não existe. já no fim, à porta do lar, voltou a dor agressiva no centro do peito, e sopraram-lhe ao ouvido, ele não está a dizer o que pensa. ainda não o sente. e aquela mulher gorda que editava e vendia livros à mesa no salão, na idade média vendia canecas de bebida ao balcão de um tasco, no rés do chão de um bordel animado no andar de cima. e ela era um homem calmo de olhos castanhos e meigos, sentado à mesa do tasco e que ignorava a escada que subia para o primeiro andar. enquanto isso o guerreiro levou isis ao cimo do telhado. era preciso captar uma imagem do casco velho da cidade. puxou-a para a cumeeira e firme segurou-lhe nas mãos. isis sentiu a mente voar, sabia que não ía cair. mas que havia caído no passado. não tenhas medo disse-lhe o guerreiro, agarra-te bem às minhas mãos. e eu no ouvido interno a dizer-lhe para não temer, pois desta vez não fugia de alguém, nem estava a morrer de amor.


um sorriso de amor pela beatriz

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bom estava o sol quente de novo, depois do frio nos arrepiar na madrugada em que beatriz acordou isis para lhe dizer, a rir muito de contente depois de escolhidas as sementes a lançar ao terreno fértil que deixou, que agora era ir, agora era só ir. e ria muito. naquela gargalhada solta a que estavamos habituados, feliz por isis a ver. e a luz prata azul branco reluziu sempre nas alturas certas, nos enquadramentos mais imprevistos, sem desdém pelos cenários mais pobres, como se nem cenários considerasse quando se manifesta. na cabeça pousada na almofada num conforto, mais do que nunca, um sorriso de amor pela beatriz. a ópera em breve. e eu feliz por ter visitado o planeta onde o sol é um violino dourado e os seus habitantes de uma espécie amável e acolhedora, sempre prontos a soltar a imaginação, e aqui, entre o metal e a rigidez das estruturas traduzidas em fórmulas de escrita deliciosa ao leigo, pois porque a assim não ser, não sei o que seria, estou eu a lançar-me no embalo dos caracteres mais desenhados.


útero da criação

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o mundo é das mulheres, são elas que mandam, são elas que têm os filhos, elas têm tudo, é tudo para elas, disse magnet. só foi pena ser cobiça, senão, seria uma grande verdade. e é. eu sou fascinado. eu sou fascinado por mulheres, retorquiu. fitou beatriz como quem pensa, é por isto que sou assim. magoa-te eu ter sido fascinado por mulheres. elas é que têm a criação. o homem apenas pode criar fora do corpo. pensou. menosprezando-se. magnet não era um exemplo de auto-estima. eu não sei fazer filhos. os filhos são para quem gostar de crianças. mas procurava criar. fora do corpo com o que recebia dos mestres, quando lhe sussuravam ao ouvido, as palavras e as ideias.ele não sabia mas, beatriz também lhe falava aos ouvidos. beatriz havia sido fascinada por homens, viveu-os intensamente. o que também magoou magnet. mulheres somos todos nós, uns mais em evidência do que outros, uns habitam corpos de homem outros habitam corpos de mulher, mas somos todos, felizmente, andróginos. o que ainda não está aprendido de todo. e por isso ainda andam por aí alguns exemplares de machistas a dizer e a fazer o que não devem, sem se questionarem em consciência acerca da finalidade de existir e como existir. como é que lhes pode passar pela cabeça a supremacia do homem em relação à mulher. esta gente não sabe o que anda aqui a fazer. e para agravar sente-se o mau ar da corrente misógina. sempre apta a destruir as mulheres, por vezes num disfarce de bajulação. cobiça encapotada de delicadeza e virtude. enfim, as coisas já foram piores. mas ainda temos um longo caminho a percorrer. benditas sejam as mulheres por todos os que com elas conviverem. porque mais ninguém tem o útero da criação humana.


livres para prosseguir caminho

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passou-lhe os dedos pelos caracóis dos cabelos. estava de passagem, já no fim da subida às estrelas, mas ainda a tempo de dizer que o fino grão de luz prata azul branco estrelado que reluzia no canto do quarto e sobre o livro que lia, era daquela criança que em tempos a havia alertado para que não adiasse mais o seu dever. devolver as sementes que não germinaram. surpresa pela rápida lucidez pois, tal como beatriz, havia deixado o corpo, há treze dias apenas. havia tido um grande funeral assitido por milhares de pessoas, e já se encontrava sóbria e pronta para continuar o seu caminho, o que é admirável. percebeu que fazia parte daquele grupo de entidades que nos passam as mãos pelos caracóis dos cabelos, e lembrou-se da noite em que julgou ouvir extra-terrenos em ligação radio com cortes de corrente e língua desconhecida assitida pelo mestre hindu invisível que a acompanhava nas posturas yoga na infância. com os olhos do corpo e da mente cerrados para não presenciar a fealdade dos opositores sentiu a mão da criança na testa a refrescar-lhe os pensamentos, a cabeça encostada ao seu peito menino, em repouso e protegida, também pela mensagem acabada de receber, naquela voz fina de anjo menina, dita na extremidade dos lábios. e sobre o livro reluziu novamente, perto o suficiente para libertar um sorriso, onde thomas moore registara a descrição de rafael da ilha que utopos criou quando mandou cortar o istmo que a ligava ao continente e abraxa se tornou a ilha da utopia. nas cinquenta e quatro cidades que contera onde, tudo era perfeitamente idêntico modificado apenas pelas exigências das circunstâncias, os utopianos sabiam que quando os habitantes da ilha eram levados pela morte, se mantinham em convívio com eles, os que continuavam no corpo, ainda por uns tempos até que estivessem limpos para ascender aos céus. e assim continuavam as suas vidas em convivência com os que haviam partido, em naturalidade, sem o medo que a nossa civilização nos incutiu até aos dias de hoje, como se o nosso medo fosse um espelho que assusta amedronta e prende, os que alcançaram a outra vida, agora livres para prosseguir caminho e vagar para em voo plano passear no céu enquanto nos observam aqui pousados.


matéria silenciosa

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a imagem da terra dentro de esferas concêntricas num globo de estrelas douradas sobre azul violeta miniaturizou esta nossa humanidade aos olhos de isis. sobre o globo de esferas pousavam os calcanhares de todos os que prentendiam imobilizar a serpente negra insistente que teimava percorrer a superfície deste globo e arrastar para dentro de si os que não lhe resistiam. naquela imagem, os nossos pés pousavam pela gravidade sobre a serpente, que insistia olhar nos olhos de beatriz, enquanto dos nossos punhos saíam raios de luz branca firmes e insuperáveis, poderosos na cura, que permitiam abrir a serpente e descobrir-lhe as feridas dos corpos que absorveu, sem que se apercebesse tão pouco que começava a deixar de existir. e de forma discreta quase ausente a serpente negra surgia na imagem como algo já sem força e sem poder como se nunca houvesse existido e todos os que consigo arrastou à luz voltassem. cobertos por mantos azul violeta estavamos todos nós, quiça, quando superarmos a rastejante, e altos recebiamos as directrizes sempre na procura de aperfeiçoar o presente no passado e no futuro, caminhando no tempo destas realidades simultâneas existentes no espaço que habitamos, agora já com a chave para nelas entrar podermos olhar no espelho e vê-lo vazio de nós, finalmente integrados no todo, mente presente colectiva, una e promissora apenas restando no reflexo a imagem do coração, símbolo sobrevivente deste corpo que habitamos, expressão onde se guarda o que nos avalia, o que sentimos, exponenciado ao grau possível de alcançar. e sobre o globo azul violeta de estrelas douradas serpenteado pela rastejante moribunda sob os pés de todos nós, pairaram os nossos corações vermelho sangue no espaço, cobrindo o globo em uníssono canto, voz única no pensamento, sagrada matéria silenciosa.


o estado das coisas

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acordou na véspera com a imagem dos rios a desaguar no mar e da água do mar a invadir a terra e banhar as margens dos rios. e neste vai e volta quis ficar neutra no cimo de uma colina a dedilhar a tinta sobre a tela e registar no fundo vermelho laranja e ouro as sementes negras de linhas brancas de girassol e as pétalas das orquideas que guardava fazia algum tempo, e assim poder ver tudo melhor. as fitas que uniam os dois lados da composição ainda não estavam definitivamente posicionadas. será necessário que se estabeleçam firmes, apesar de ser tarefa difícil, para poderem pintar o quadro em toda a sua extensão, quadrado estável de um metro, espelho de imagem real abaixo da linha média, para nos vermos agora finalmente, no real estado das coisas, convulsão de limpeza interna, vassourada nos dinossauros que entre nós caminham, sobre a sombra dos que mais alto alcançam os desígnios da nação, pedaço de terra que apenas faz parte deste ser vivo que habitamos e ao qual voltaremos, agora em avaliação clara de capacidade, no cumprimento do dever de uma nova aprendizagem, que façam o melhor. está agora o cenário limpo para novas encenações entre o reboliço e a calmaria das águas a ver se os rios desaguam fluidamente no mar sem travagens e se as águas do mar comtinuam a banhar as margens da terra na humidade dos corpos, onde a consciência se encontra no estado mais puro, no qual pretende adicionar à tela as pétalas da magnólia branca, quando na sua sombra se elevou ao espírito e pôde ver o estado das coisas.


somos todos almas rebeldes

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e por isso umas vivem mais os sonhos do que outras. por vezes acordam exaltadas na noite gritam e porque lutavam com alguém gesticulam violentamente, outras vivem os sonhos como se fossem a vida, esta ou outra, outras observam os sonhos, decidem se os querem sonhar quando se aproximam, têm a consciência de poder fazer opções, cumprem finalizam, vêm deus e a luz branca e as cores, e mesmo assim são rebeldes, talvez mais ainda.
as asas do anjo de henry atrás das suas costas, de penas negras cinza e brancas, mostraram a ísis porque costumava henry saltitar com regozijo sempre que aquelas penas lhe acariciavam as costas. e como deus, o ar que não prende, não consseguiu tocar as penas do anjo de henry. e porque lhes via os contornos de luz assumia na mente as influências que para si eram perceptíveis como se os olhos dos que via protegidos pelos anjos fossem os seus. e essa ligação mental materializada na imagem do anjo era como a chave que permitia aceder aquele espaço de ser transparente, não delimitado, mas mesmo assim com buraco de fechadura. e porque há o entendimento de uma paixão por isto, como pelos faróis que se trepam em conjunto numa corrida ao céu soube que certa vez lhe levaram a alma do corpo e que apenas conseguiu ter a consciência de que não conseguia porque não podia pensar. deus tira-nos a alma do corpo sempre que lhe quer falar em privado sobre o que não devemos ouvir. e é quando nós simplesmente não conseguimos pensar. ou então só conseguimos pensar que não conseguimos pensar. e a alma é rebelde. quando o poeta prestes a sussurrar a magnet o som das letras que lhe haviam de impulsionar a escrita convocou a alma de ísis e ambos se abeiraram do seu ouvido direito para lhe determinar a direcção, sem que magnet os visse, ísis viu o quanto a sua alma é rebelde.


esse sim, era o seu

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costumavam passar longas horas na biblioteca de paredes brancas a ver os fluídos esbranquiçados à volta dos corpos e as zonas de principal irradiação de cada um. tu tens uma ligação directa com deus, dizia ele. porque é que não irradias? não escondas. as mãos e os dedos longos e nodosos de lamas movimentavam-se a lenta velocidade pois o desenho que aqueles movimentos traçavam devia ser exacto. no comboio antes de adormecer e do anjo negro a ter desenhado depois de lhe ter dito que o seu cavalo era preto, como ele, conduziu-os individualmente a um cenário próprio criado naquele momento por cada um estimulados pelas suas palavras e pelo desejo de encontrar apenas a resposta às suas interrogações. lamas assustado reparou que ísis sabia que vida ía ter. dentro do seu cubo suspenso no ar no deserto e revestido por superfícies e planos transparentes, translúcidos e brancos, com um sorriso, ísis observava ao longe um cavalo branco que corria cheio de vida sem parar da esquerda para a direita e que de vez em quando cavalgava até se aproximar do seu cubo. passava-lhe por baixo sem o ver. julgou que aquele cavalo era seu e que apenas ainda não a conhecia. sentiu profundamente que o seu cavalo era o branco que continuou a correr de um lado para o outro a levantar a areia das dunas sem parar. por vezes parecia conduzir um carro romano que nem sempre viu. das seguintes vezes que o cavalo branco se aproximou do seu cubo suspenso no ar, estranhou que não a visse. pensou que talvez nem sequer a procurasse. na entrada no cubo, ao centro da face inferior, estava colocada uma escada de madeira. ao fundo da escada encontrava-se um cavalo castanho quieto estático meigo. à espera. durante anos interpretou aquele cenário de uma forma. e chegou mesmo a desejar que o cavalo castanho fosse embora e desistisse de esperar. continuou suspensa dentro do seu cubo sempre a acreditar que o seu era o cavalo branco. quando a beatriz morreu e o pai lhe disse que o sol chamava por ela reparou que na entrada da capela se encontrava um cavalo branco. e foi quando percebeu que o cavalo castanho que já lá estava à algum tempo esse sim, era o seu.


de quem não vive na carne

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pela matina, a luz que irradiava sobre o nevoeiro e lhe levava a humidade à carne e aos ossos, abriu-lhe o caminho no pensamento. com as ideias frescas levou-se à praça onde apanhou o transporte. pelo caminho libertaram música no ar. em sobreposição houvia as notícias na rádio. parecia uma manhã fresca e era bom que assim fosse. o trabalho a esperava pela primeira vez. estava a iniciar um novo ciclo. perto da praça que tinha um coreto no centro e árvores altas douradas pelo outono, anunciaram a morte de amália. havia terminado a sua jornada entre nós. ficou o dia marcado por isso. haviamos todos perdido algo. e não imaginavámos ser possível preencher o vazio que deixou. ela era a sua própria alma. a expressão de quem não vive na carne.


o pelo à volta do pescoço

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e deus fê-la sonhar com duas esculturas inéditas, talvez de giacometti, numa máquina de fogo. e as figuras humanas nelas queimadas, consumidas, cheia de piedade, tentou salvar, mas as figuras não queriam ser tocadas, viviam bem na máquina, no fogo, queimadas, talvez até fossem felizes. deixou-as lá ficar. deveremos todos arder. atiraram a moeda ao ar e decidiram atravessar a luz em busca de alimento. e no deserto gelado, sujeitos a redemoinhos, e com os corpos nas esculturas cada vez mais pesados e lentos arrastados pela mente na qual fizeram janelas para ver a alma puderam viver que quando chegassem ao fim da travessia teriam de fazer todo o caminho de volta e declarar uma outra causa, vincar na terra um estandarte maior. o amor pelas mulheres. o pelo à volta do pescoço.


o ar e o corpo

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sentados à mesa numa conversa de voz finíssima e alta, suscitou a curiosidade do padre que lhe perguntou se gostava de historias. o engenho e a arte de compor pairavam sobre a mesa redonda nessa noite. ombreados, alinharam os braços e as mãos e sentiram paz. e o padre acreditou na sua força. e na alcova o padre tinha um filho. e o menino ao colo da mãe, tinha um boné azul que à luz da janela parecia verde. e a mãe e a criança protegeram-se em casa nessa noite. e no fim do jantar olhou o futuro que lhe disse, vem aí o diabo. ao qual respondeu, eu posso com ele. e o diabo veio e enredou e tentou atormentar e queria cometer o crime e dizia que era tudo, ele sim, e queria tudo para ele, e dizia que a amava e repetia e afirmava e tinha um lacaio que mandava nele e um amante feio com o rosto marcado de cicatrizes e olhar desviado que chutava os tacos do bilhar e rosnava e trepava as paredes da mente quando a viu. e ficou ali sentada quieta a ver o diabo e o amante a lutar. e quando foram ver o mar e se abeiraram da água e o diabo mergulhou na superfície, e porque ao mar tinha medo e respeito, ficou pel areia, mas como a tentaram os desígnios a molhar os pés, pisou a areia molhada sentindo o mar banhar-lhe os tornozelos. e depois do que se passou a seguir, recuperou o ar e o corpo. e o diabo fugiu de vez.


ao longo da caminhada

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escondida entre o trigo alto, olhou o sol fechou os olhos e abriu caminho. abeirou-se da estrada viva pediu boleia ao barco de mercadorias que sabia levar segredos de deus. recebeu-a e sim gostou de si. mas logo tomou outro desvio que não aquele. esperou ao longo da caminhada sabia que outro barco a iria tomar a bordo. e assim foi. visitou-a no seu porto. mas teve uma surpresa que lhe despertou curiosidade. na copa fugiu porque teve medo, as cozinhas transtornavam-na, desempenhava as tarefas à velocidade máxima possível e fugia logo depois. mas quando preparava doces apaziguava a alma tranquila. e se a queriam ver feliz era dar-lhe de comer. e os doces são como as crianças e as crianças nem sempre são como os doces e delas lembrou-se, presas expostas aos rebeldes e as mães lá fora e os polícias não souberam fazer as coisas e dizem que os russos comiam os filhos e pensou-se, claro não iam saber resolver, e assim foi correu mal, e as crianças morreram na fuga, e as mães de braços abertos e elas a correr e a cair no chão, mortas, feridas, a urina colada às pernas de medo. nuas. sujas. marcadas. perderam amigos não querem lá voltar. e os rebeldes também têm a ajuda dos céus. tudo é complexo. e dos polícias lembrou-se como os viu a míudo sempre que o diabo se abeirou e lhe dizia que os via atrás de nós sempre que olhavam juntos os espelhos. e o diabo temeu. e o diabo adorava os padres e sabia como só ele sabia o significado da óstia e da tomada do corpo de deus.


a mão de deus

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e decidiu de uma vez por todas que não. não ía deixar que a prendesse. e determinou, podes escrever em tudo que for pele deste mundo, podes deixar o ar repleto dos teus registos, o planeta coberto pelas tuas palavras, de nada valerão a não ser as tuas palavras ditas ouvidas pelos meus olhos. a praia estava encerrada numa parede de arame em quadrícula que recortava a lâmina cada enquadramento. os passos ritmados marcavam o rasto com som no chão. a lâ à volta do pescoço. estava tudo diferente. o rio desaguava no fim do corpo, a boca que o libertava para o mar. a capela chamava por nós. haviamos de lá ir. a caminhada pela terra miúda, apesar de nos sujar as calças, aliviou-nos o peso na gravidade. estava um ciclo concluído. o homem que fazia praia no inverno protegido pelo paredão e as rochas, vestia um calção azul. a janela do sotão da casa antiga que toda a vida via da janela do quarto, estava coberta por um pano azul. até a lingerie estava azul nesse dia. o livro de marketing em cima da mesa era daquele azul. já não somos quem fomos. a luz que vem do norte trás-nos as mensagens dos mestres e com elas cobre o mar com uma textura que o torna daquele azul passível de olhar na luz, de olhos abertos sem semicerrar. e no meio de todas aquelas obras, foi como se o busto de rodin sorrisse para ela. camille claudel sempre na memória. a mão de deus. esculpidos na mão de deus. deus mais uma vez meteu a mão em nós.


estas coisas do peito

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e com os pés no céu e as mãos na terra estiro o corpo e solto a cabeça para sentir a plenitude do meio que sou. e é essa a minha posição. no meio. apenas vario em torno do eixo marcado na chama do plexo solar que por vezes em rotação expansiva extravasa os limites do corpo e é quando encaixo o planeta na palma da mão, com amor pela terra e pelos homens e desejo um mundo melhor. e muito questionei o arquitecto italiano e como ele era interessante e bom e como gostava de dar a conhecer e puxava por mim. e me obriguei a transpor as barreiras para encontrar respostas às questões com as quais me confrontava. e como havíamos lutado no início pela conquista do meu cenário de simulação. recoloquei-me no tempo no espaço e na criação e reposicionei-me na aparente e real desordem das coisas. e disto me alimentou também o novo motor de deus. e ao novo motor de deus disse-lhe que não quisesse saber porquê, quando me perguntou o que tingia as rosas de rosa, e as maças tingiram também, quando tudo deduziu e com ele desenvolveu conversas de terapia. e nela me amparo. e sei que nela tenho colo. e como penso tanto nesse omega sublinhado como se pairasse sempre sobre a minha cabeça, ou então como se fosse uma mancha agarrada à superfície das minhas formas, lareira laranja suspensa sobre a determinação dos desígnios. eu não diria que não somos normais, diria antes que somos designados. e jantamos cogumelos recheados e os temas eram os que suscitavam a atenção da alma e a música cobria-nos o tecto e isolámo-nos no discurso como se fossemos um reflexo do que gostaríamos de saber. e pronto, mais uma noite passada na companhia de gente com vontade de saber coisas sobre estas coisas do peito.



e o filho não queria carregar o pai às costas e o pai não queria ser carregado pelo filho mas não queria abandonar a mãe. ela não lhe ficou com o pai. não lhe competia. haviam de confrontar-se como não o fizeram em vida. e assim foi. e uns porque desconhecem outros porque não querem saber, deixam-se ficar, a medo na sombra. mas por vezes são vistos. e o pai lá estava na entrada da sala, curioso pela visita inesperada. viu-o de relance, mas logo se desvaneceu no espaço. e ouviu o que tinha para lhe dizer. agarrou-lhe o ar quando saiu dali, anda comigo. há que os encaminhar. terão de seguir viagem para depois voltar em segurança. e tudo sempre muito dourado. já não se lembrava de nada a não ser de que era tudo muito dourado. e de saramago fixou, ursulina não me mates que sou teu filho, e a mãe comeu o filho e ai meu deus que horror. e o mar levou o filho da mãe. as águas castanhas arrastaram os destroços e o mar invadiu os olhos e cegou-o para a vida. virou-o para dentro, à superfície da pele ficou a alma, e a alma tem corpo de mulher e chora, chora, porque se sente feliz por não ter sido levada pelo mar, que já não é o que quer. ou queria. e ele também não sabe. e volta sempre a esta querência de voltar ao útero. pela mãe ou através da mãe. e chega. repouso os olhos no azul aveludado do texto.


incêndio

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incêndio, era o que temia, o incêndio da alma, e por isso, não querendo olhar a ferida que tinha no centro do peito, talvez rasgada pelos vértices da lua, ignorou-a como se não existisse refugiando-se na espessura da pele sensível, temerária, que até a si avisava que não queria ser magoada quando se propunha a tocar-se. e como estava escondida e protegida na espessura fria da pele e pela camada de gelo à volta da ferida que ignorava, ignorou também o medo de não poder ser mãe. e naquela historia arriscava a vida pela vinda de um filho, imagens remotas e paralelas à sua existência. já ninguém era criança, principalmente eu. um dia teve de comprar um livro castanho. determinou que seria o último e não queria nenhum dos livros que vinham por aí, porque já os conhecia e mexiam-lhe no centro do peito, que doía muito. e por não suportar mais o cruzamento de pensamentos que lhe trespassavam a mente, e porque o pai insistia em arrefecer-lhe as costas na presença de todos, apoiou-se nos que estavam à sua volta e subiu aos céus levando consigo alguns espíritos e aliviando o sofrimento de outros. olhou o mar atlântico e abriu os olhos com terror. sentiu aviões sobre a cabeça que baixou e assustou-se com a ideia de haver guerra ali. e no ambiente criado soube que ele lhe telefonava a dizer onde estás, quero estar contigo e sentiu que aí tudo se findava. mas não era já. isso seria daqui por muito tempo. e foi como se deus não a assistisse. teria de dar a alguém o que não conseguia mais acumular em si. pediu-lhe que a libertasse se lhe tivesse amor, havia de a querer ver livre e feliz. tinha a certeza que não era ela quem devia carregar o fardo. mas por ser simples era-lhe difícil viver uma vida que não a dele. foi ver. se calhar vai ter o que não queria. entretanto há uma ordem a estabelecer e ligações a fazer ao céu. a tremer, talvez até a vacilar, mas a levar a efeito e os cérebros mais leves descansados. e o natal na véspera, e a família unida e com saúde, alta e simples, a voltar sempre, ao peito, quente e o coração lá dentro, bem no fundo, a esconder-se, porque não pode ser feliz.


nós não pudemos ficar assim

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a beatriz…ela está a morrer, ouviu nunca pensando que fosse aquele o momento. disse já vou foi-se lavar e morreu. e lavou as nossas almas de tudo. sentiu o peso dos objectos e o peito perfurado. desceu a rua sem saber onde pousava os pés. o corpo ainda morno. protegida. não a voltamos a ver assim. e as flores, as flores para as mãos. um aperto no peito. ele vem aí. e já se via abraçada a ele. fizemos-lhe companhia à noite. já estás tão fria. diz-me só se estás bem. se ainda não foste fica comigo esta noite. no frio. uma mão de frio nas costas. não chores. uma mão de frio nas costas. não fiques triste por não me ter voltado. diz. espera. voltou numa outra mulher. pintou os lábios de vermelho escuro e as pálpebras de azul fundo do mar visto do céu. como no esboço de tinta que fiz e que te dei. lembras-te. lembras-te de mim. olhou como se me tivesse amado. eu sou o cruzamento entre três mundos. os olhos já não eram como os nossos. os olhos livres. subiu. tenho a certeza. ele era o guerreiro que combateu no norte de africa. as muralhas do castelo protegiam-nos do que nos poderia surpreender vindo do arvoredo. numa manhã de um verde maior sob o céu. ele era bom estratego conhecia as tácticas dirigia e combatia. sempre a correr. dividia tudo em dois com alguém de confiança. afinal não seria novidade. costumava conduzir os exércitos aos montes para que sentissem as nuvens e nelas pudessem dormitar antes das batalhas enquanto alguém lhe tomava o reino e a mulher. talvez por sua vontade. não sei se assim foi. certo é que se mancharam. mas agora estavam limpos disso também. nós não pudemos ficar assim. diz-me.


pelo véu de maia

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se já não soubesse que o tempo, o inferno, o pecado e a culpa, não existem, o que não pode ser dito porque o mundo não entenderia, pedir-te-ia hermes, tu que inventaste a lira, filho de zeus e da cândida maia, que nas tuas sandálias aladas conduzisses a minha alma como mensagem para os deuses e para deus a esse lago vulcânico de margem escarpada coberta por espesso bosque, onde magnet o poeta entrou quando caiu do reino do céu por desrespeito à sua musa. pelo véu de maia cobre-me a face quando o chamares à boca do lago, para que apenas possa ser entrevista e leva-me ao averno talvez agora possa ouvir a mensagem que guardo para ele. devolver as sementes de ilusão que quis plantar em mim.


abriu a boca da testa

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foi pelo filho deitada na superfície de água quente com as mãos sobre o ventre e as pernas cruzadas. abriu a boca da testa para a luz que bebeu e engoliu no corpo agora iluminado e morno. euterpe apoiada no pé esquerdo e o seu pequeno anjo menino envoltos por cachos de caracóis nos cabelos avivaram os quatro instrumentos e entoaram a terceira sinfonia de górecki. os pés descalços. só visto o regozijo do anjo. deus não deveria beijá-la durante este sono. não. isso seria demais. e os tons soaram mais alto. a multidão que a ouvia cantar pairou sobre o céu paredes casca de ovo semente lançada aos corações via ouvidos. que delícia o som das cordas humanas, o ritmo natural do corpo, a tranquilidade de quem é serena e depois as harpas dedilhadas e os pensamentos das mulheres flutuando sobre as velas acesas. e depois mais alto. cada vez mais alto. e com os pensamentos flutuaram elas também naqueles trajes exuberantes cantando. e o céu por detrás das ruínas. e as vozes múltiplas de uma só mulher de braços abertos em roda viva. cantando lá de longe. ausente de si corpo perto voz lá no céu.


dante amava beatriz

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e o fim era o reinício. mas primeiro era necessário viver as sequências por devir. porque, por maior que seja a sabedoria e o alcance da visão ninguém escapa a sentir tudo o que deve e tudo a que tem direito. e que assim deva ser. por isso estranhava o lamento de magnet. como álcool disse que a havia prendido ao longe pelo coração. magnet ferido desprezou-a. aí pôde descansar dele. magnet gostava mas não queria e não podia. e a distância interessava-lhe pois era feliz com a bruxa que o havia enfeitiçado, disse. afinal o que queria ele. magnet era louco. e não soube o que querer. e no silêncio que a distância protegia magnet volátil tomou a sua boca humedecida de espanto e nela disse o primeiro poema. nos seus lábios com a sua voz. deus estava dentro dela. desejou encher o ventre depois disso. tombou a cabeça sobre o lado esquerdo e sorriu de alegria. lembrou-se da imagem de penélope banhada pelas águas do mar em torno do ventre, por ulisses. depois sentiu-se como quando a atiraram para a masmorra depois de lhe cortarem a respiração e tudo continuou a ver como dantes apesar de saber que já estava na morte. magnet apenas queria destruí-la, nada mais. ela era a imperiosa marca da redenção à qual tinha de se submeter. e da qual fugia. magnet não se quer render. mas dante amava beatriz.


e andam a morrer de amor

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e andam a morrer de amor. caminham com o peito pesado os olhos tombados pelos lados o queixo caído os membros cobertos de formigueiro. uns escrevem para pedir desculpa outros terão de perdoar alguns querem saber porque estão presos. todos querem resgatar o amor e as faltas. é urgente. importante mesmo é respeitar o amor dos outros para podermos encontrar o nosso.


um pilar para ele

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magnet disse-lhe que ainda ardia ou renascia ou continuava a sentir o peso, não chegou a perceber. talvez fosse tudo. continuava amarrado, dizia ele. pensava que não, que estava livre e que não existiam cordas nenhumas ou o que quer que fosse que o prendesse. mesmo assim quis dizer-lhe que era apenas cura o que queria. e exercer a prática fazia muito bem. magnet era insistente. não queria desistir, ou talvez não quisesse que ela entrasse no jogo. não sei. magnet era sombrio soturno e macambúzio. lembro-me como certa vez rasgou os olhos de espanto quando viu o movimento das suas asas transparentes e o brilho da lua dourada no centro do peito. os olhos de magnet eram pequenos e castanhos, apesar de ela sempre os ter visto verdes. ela era um pilar para ele. uma vez agradeceu-lhe o precioso apoio que lhe havia dado. ele tinha fé nela. ela apenas queria ver o fim. mais nada.



hoje, deus surgiu da noite e aproximou-se do seu rosto. fitou-a fixamente. retribuiu-lhe pequenos beijos no pescoço e no queixo enquanto ele a olhou como pedra. parou. deus abriu-lhe os lábios e beijou-lhe o interior da boca. vezes e vezes. e disse-lhe: que lábios tão femininos.


morna

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morna, levou a dor às cores, e constantino envolto em fogo, húmido possível de agarrar, empalideceu. escureceu sob a atenção dos palhaços de olhos esbugalhados e lineares, eles em espelho ela no meio, a criar barreiras em tons de cinza. e sentiu o calor em torno do ventre sempre que o sol aquecia o céu como se ambos estivessem dentro dela. e era o que deus queria. e ainda bem que alívio saber que somos efémeros e de definição múltipla. o corpo personaliza-nos demais. lembrou-se do tempo em que apenas existia do pescoço para cima e o corpo não pesava, e não sentia a humidade do ventre, nem a convulsão dos fluidos, nem a irradiação a trepar pela coluna. o corpo era o que nos fazia sentir para além da necessidade. e a euforia invadiu os corpos desalmados que se sugam, chupando o sangue que resta e reduzindo-os a cadáveres que alimentarão a terra, fértil de novas histórias para uma nova era da humanidade, ou de outra idade, talvez mais humana.


dentro daquelas pedras

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mesmo assim não conseguiu deixar de sentir compaixão por eles. apenas queria que curassem as almas diluindo em água limpa as manchas nas cores avivadas de luz pelo calor do sol. e voltando ao seu estado pode ver tudo do céu. continuaram caminho com os que lhes estavam próximos. uns acorrentados pois os serviam, outros em aliança para testar os limites da amizade, outros uns degraus acima para lhes medir o merecimento. lembrou-se que o diabo certa vez mesmo sem querer lhe havia restituído a vida quando ficou sem chão onde pousar os pés e as correntes do mar a levaram e como esperou que ele a fosse buscar, e foi e como depois lhe agradeceu e sorriu de contente. e do pequeno deus lembrou-se como ainda não a havia salvo, a não ser de si próprio. e talvez fosse esta a sua virtude. apesar de não a querer largar. e daqueles que vivem a vida em equilíbrio porque caminham sobre uma corda alta e por isso temem cair e porque lhes disse que gostava de ver as esculturas gregas partidas pelo chão, recebeu um esboço entregue por um anjo negro desconhecendo que aquelas pedras eram as suas. e o anjo negro era a extensão de todos os que conhecia como um complexo de espelhos desprovido de personalidade própria e por isso não sabia o que estava a fazer. voltou à terra dentro daquelas pedras para poder renascer.



e afinal deus e o diabo eram apenas seres infelizes que viu na vida uma e outra vez e que não a esqueceram. partilhavam publicamente o peso e a culpa que sentiam disfarçados de falsa leveza e lamento pois dominavam bem as palavras e os sons. deixavam velas acesas pelos caminhos que fazia para que não os esquecesse. não a podiam ter, mas obcecados com os seus umbigos tentaram prendê-la à distância. e diziam e pensavam que eram grandes estes pobres que tinham sempre à flor da memória as imagens e as palavras das bruxarias que fizeram em conjunto. e que bem se lembravam. pediu-lhes que se libertassem dela. não quiseram. disse que lhes queria falar mas antes precisava trepar um farol, mas que esperassem pois logo depois lhes daria a verdadeira resposta de deus. o diabo denunciou-se. e o falso deus mostrou que o amor que vinha a declarar fazia anos, era apenas simulação. fugiu para não ouvir a verdade e agora faz de conta que quer começar tudo de novo como se fosse possível apagar o que ainda não foi corrigido enquanto o planeta é limpo de todos os falsos deuses que por aí andam. e com uma inspiração levanto bem alto estas palavras que diluo no céu.


e leu:

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e quando voltou as costas a deus e ao diabo virando-se para a luz, lembrou-se das palavras de stephen spender que não tardou a procurar. e leu :
´penso continuamente naqueles que foram realmente grandes. aqueles que, desde o seio materno, recordaram a história da alma pelos corredores da luz onde as horas são sóis, intermináveis e a cantar. cuja amorosa ambição foi que os seus lábios, ainda acariciados pelo fogo, falassem do espírito, vestido dos pés à cabeça com canções. e que guardavam dos ramos da primavera os desejos que caíam pelos seus corpos como flores.
perto da neve, perto do sol, na terra mais alta, vede como os seus nomes são agasalhados pelas ervas ondulantes e por correntes de brancas nuvens e sussurros do vento no céu ouvinte. Os nomes daqueles que nas suas vidas lutaram pela vida e que traziam o centro do fogo nos seus corações. nascidos do sol, viajaram para o sol e deixaram o ar vivo assinado com a sua honra.´



e não sabendo quem, soube que beijou alguém mesmo antes de acordar pensando, tenho de ir. abriu os olhos de limpos que estavam e com a memória fresca procurou na cama algum vestígio ansiosa por saber quem foi. e temendo que fosse deus ou o diabo, porque deus tinha nos cabelos um ninho de víboras e o olhar convertia as mulheres em pedra de ultrajado que se sentia, e porque o diabo vivia no rosto de um anjo que se mostrava sempre que tentou querer desvirtuar os homens por amor a deus, e sabia que deus amava a lua e por isso lhe enviava mensagens por telepatia, que tardiamente recebia nos sonhos e sobre as quais pensava, nada, tentou apagar da memória aquele momento. lembrou-se que ambos gostaram do seu seio mas apenas queria que não fosse invejado pois sabia que a ira os levava a desconcertar as donzelas recatadas em tom de provocação, aquilo de que sempre falavam porque só eles é que sentiam, a provocação dos desígnios na definição corporal, a incapacidade e a consciência de não poder ter sido, ou ter tido, uma donzela recatada. e com pena de ter de pensar estas coisas, porque nunca a incomodou o amor entre homens e o amor entre mulheres, e porque os recebeu de braços abertos sem se aperceber que já lhe cobiçavam o seio, passou uma esponja húmida sobre aquele acordar e continuou o dia como se o amor de deus e do diabo afinal, não a merecesse.


aguardou as sequências por devir

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mas antes disso abriram-lhe um véu sobre a fronte. já não via como dantes e queria saber porquê. e por uma força galopante gerada no plexo solar, que lhe trepou à garganta onde a engoliu e sintetizou em palavras e imagens que a angustiaram, porque os corpos se devoravam uns aos outros, e porque faltava atribuir luz às cores, lançou uma escada de 33 degraus às paredes brancas e subiu até onde pôde. era difícil lá chegar, os degraus eram altos e quem lhe valeu foi bartolomeu. deslizou para ela e na varanda recitou a mensagem que guardava em seu nome. porque isto de ser esfolado vivo tem muito que se respeitar. a maturidade era tal que mesmo sem conhecê-lo, rendeu-se, à confiança. alertou-a e confessou, o véu é só para proteger. o tempo tinha passos largos e havia muito trabalho pela frente. sossegada, aguardou as sequências por devir, e assistiu pausadamente à desenfreada fuga dos animais esfomeados que lhe roubavam os alimentos cheios de medo que os fosse resgatar.



Com o som dos judeus pediu-me compaixão. as mulheres falando ao coração e à história fizeram-me escrever a sépia sobre papel vegetal para envolver a caixa agora guardada no sótão, talvez já roída pelos ratos, que bem nos ajudam a desprender a alma das coisas com a destruição. à beira rio as àrvores passeiam as sombras nas águas. um dia gostaria de ver a paisagem do outro lado e poder ler as minhas costas.


recanto protegido do vento

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a igreja estava em obras. sentada no banco esperava por ele. sabia que trazia as imagens que havia recolhido. ladeou-a e disse que precisava ainda registar mais algumas. e por isso não a encarava nos olhos. o espaço não o permitia. o desejo de santidade tornou-se inglório e o padre negou-a e conduziu-a à fogueira. no ventre o filho de ambos. desamparou-a no amor e foram consumidos pelas labaredas. também já a havia desventrado e dissecado, porque não a reconheceu, e ficou marcadamente estigmatizado por isso. e porque repetiu demais as existências e precisava saber porque o trocou por uma amante e sofreu de amor por ela, eis-nos na nossa condição de incondicionalidade. e as imagens a preto e branco fixam mais a história no tempo, que não existe na escala do que escrevo, mas apenas na escala do que vivo, porque assim se revela necessário. como miniaturas que somos no universo cosmológico. e as mulheres dançam translúcidas na floresta e sobre o mar. e os pretos divertem-se com as luzes marron sobre o ouro, fósforo da cobiça, êxtase da visão, transporte da alma. as pérolas aleatórias abundam no rectângulo simulado que entretem as multidões. e o relevo cada vez mais íngreme diz-me que é melhor parar, procurar uma gruta, um recanto protegido do vento que me poderá roubar instantâneamente a alma, e aí descansar para depois retomar a caminhada.


à noite no escuro

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à noite no escuro do céu observo a lua e é como se me espelhasse, alma nua, corpo difuso, só olhos e boca dentro da lua transparente, ali encerrada até que o sol se faça estrela grande, e cultivo esta ideia, de dádiva a conhecer, a juntar à biblioteca das minhas existências, outrora abundante de histórias de prazer e luxúria, de carnes satisfeitas por apetites vorazes, de tortura verbal aplicada ao clero de desesperante clausura e cegueira e falsa santidade.



a escarpa de gelo que trepou conduziu-a à queda na ribanceira. rolou o corpo parado pelo prado verde pontuado por uma casa rodeada de árvores altas e um fresco ribeiro. a casa era sua mas estava ocupada por outros. circulou à volta e prosseguiu caminho. não vou entrar agora, pensou. primeiro tenho de fazer outras viagens. e esta história estava longe. está tudo longe. os figurantes da época surgem agora aos poucos e vão-se lembrando de mim. ainda me lembro que me bateste à porta e me retiraram a consciência ensurdecendo os ouvidos. e as bactérias que poderosas foram quando quase fui atrás. instalaram-se ao redor da madre para me imobilizar. foi por um triz. mantiveram-me assim durante largos meses até poder dizer o que podia. e não pude dizer tudo. ainda assim ficou alguma areia no ar e talvez nos olhos. que vá para longe. e os sinais na rua tentam-no e mostram-lhe o caminho. e é quando se desvia dessas imagens que lhe partem os ossos e o fragmentam porque o roubam. e nesta exuberância sente um amor supremo e incondicional, e depois vê-se deitado ao meu lado e é quando lhe digo: não fujas mais de mim. e esta cena repete-se com ténues variações de toque das nossas epidermes.


diluição do gelo feito água

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entre eles estavam todas as personagens das histórias que viveram. agora apenas se pressentiam pelas costas e várias vezes se sentiram e ouviram no silêncio. e como ficavam enternecidos por isso. a morte que a quente foi executada deu início à diluição do gelo feito água sobre a terra queimada, cor de ferrugem, paisagem das imagens quentes e secas, outrora sem mar, agora invadidas por ele depois de exposto ao vento mexido pelo centro da terra em luta com o sol, que esconde a lua no peito, e a lua prata que esconde o peito lunar dourado de amor a deus, juntos por fim no cosmos, e as almas niveladas sem buracos fundos, negros, pesados pela história e pelos momentos cegos, motores da evolução e do sofrimento. e como me satisfaz a simulação deste amor!



e quando de novo desceu ao centro da terra, porque a atraía a humidade e o fogo da lava era de grande contenção como a ferida que tinha no centro do peito, foi resgatada pelas cores que a ajudaram a adormecer. voltou a sentir os passos como dantes e a frescura da brisa nas formas do rosto. voltou a ver as sombras, as formas e as cores, encarou a luz e sentiu vontade de subir o mais alto que pudesse. procurou o farol de deus que mais estima, trepou por ele acima alcançou as nuvens e pregou o pensamento nas estrelas pela força das imagens que gerou. e no escuro da imensidão do cosmos pôde vê-las surgir e cintilar quando a sua alma lá chegou. emitiu, é aqui que eu quero estar. fazer parte do corpo de deus. desviaram-lhe o olhar para a sua direita. extasiada contemplou a visão do astronauta, a terra vista do céu. havia sido a meta física que determinou. chegar ao corpo de deus. e sinto os ouvidos quentes e húmidos. sopram-me as ideias, levanto-me vezes na noite para te registar, a ti poesis publica, exposição do amor sob o véu deste monólogo da lua dourada no centro do peito.


desproveram a alma do corpo

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lembro-me como e porquê delaunay fugiu do nome grego, e eu também, desprezando o que a senhora alta e loira me dizia acerca do meu queixo, antes de deus me ter familiarizado com afrodite, e como a excitava o senhor que comia muitas maças cozidas, sem saber que passeava meninos no banco de trás da carruagem. e os gregos fascinavam-me, porque eles têm lá tudo, e nada mais é preciso senão os gregos, e certa vez acordei sóbria deitada sobre as nuvens, como no olimpo que nos habituaram a imaginar, e surpreendida por ter chegado ali, pensei, eu estou aqui neste limbo, e aí descansava do fogo do inferno que deus plantou à minha volta, eu uma flor escondida na terra, com medo de se expor ao sol, coberta pela terra queimada do fogo de deus. e quando deus me incendiou, e a luz que me protege nada pôde fazer por ser esta a madeira que escolhi para trabalhar, comigo incendiou também. desproveram a alma do corpo e depositaram-me no céu. e sei que se pudessem me tirariam o sofrimento.


até alcançar o voo

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assusta-me o número. temo pela remoção das almas, pelas manchas que poderão ficar nas suas cores. e imagino que vou até à baía e as ajudo a subir ou a sair da escuridão ou a encontrar a luz. e a tarefa é árdua e dura. assusta-me o nº. e peço para que esta ceifa não fique marcada por demais na memória dos que a viveram. e imagino de novo que os levanto e os ensino a voar em direcção ao céu. talvez queiram subir mais depressa agora. mas que não se percam. que procurem a luz dos faróis de deus e por eles trepem e corram até alcançar o voo.



dizia com um sorriso malévolo de criança já crescida como sempre tentou controlar o corpo esquecendo-se do coração. e como não o dominava. e por isso provocou um hiato no movimento do que o rodeava e deixou as pessoas estáticas a olhar o vazio enquanto retomou a realidade. agora, os fios já não puxam por ele como dantes, e sente que não está livre como queria e impacienta-se com isso. e vai-se dedicando a estudar os universos paralelos, a teoria das cordas, a ler os livros do stephen hawkings, na sombra de um choque entre os ossos, uma cadeira de rodas e uma agulha que lhe desbloqueou a energia parada no corpo, a medo e ansiedade, de não mais poder correr. e num menino grande de caracóis loiros e áurea de anjo se encerra este ser a ficar surdo, imóvel e cada vez mais a querer saber porquê! e aqui reside uma das questões essenciais e básicas que emerge sempre que nos deparamos com uma descompensação que nos afecta directamente, que mexe com o orgulho, e que nos invalida de ser o que queremos, e nos obriga a ser o que não queremos, porquê? e deste porquê por vezes, surgem respostas fabulosas, percursos admiráveis, motivações mananciais, verdadeiras lutas pessoais com a figura de deus reflexo de nós, muitas vezes ignorando que essas lutas são simplesmente lutas internas, estritamente pessoais e deus é apenas o interlocutor entre o que somos, o que não somos e o que poderemos vir a ser, e puderá dar resposta ou não, a querer saber porquê.


de volta na atmosfera

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subi à casa do sétimo piso pelo meio da torre alta. no corredor circundante, largo, não havia janelas e as paredes deviam ter a espessura das muralhas e por isso se tornavam pesadas aos olhos. ficamos sem saber se havíamos de suspender os panos brancos ou simplesmente pousá-los no chão. importante mesmo era abrir as muralhas para podermos ver a paisagem, e afinal as janelas que estavam escondidas eram bonitas de se ver e valia a pena libertá-las. no cenário, a avenida dirigida ao mar mostrava a linha de encontro com o céu. à noite, à mesa e ao som da música sofrida, de novo voltámos à atmosfera. soltamos o corpo das cadeiras e levitamos sobre a casa em torno do tema do costume. a dúvida humana.


no interior da terra

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acordou na madrugada a pensar no que vai ser de si nos próximos dez anos, depois de ter desejado a limpeza saudável do planeta. passou da escala geral para a escala pessoal num ápice como se de repente, finalmente se lembrasse de si. sentiu o interior da terra a mover-se e temeu pela surpresa de um dia acordar noutra existência. somos tão efémeros, pensou. vamos todos fugir para o hemisfério sul e o planeta irá atingir a maturidade. e quem ficará por cá? retorquiu com medo de não fazer parte do grupo dos eleitos a desenvolver a maturidade da terra.


sob a sombra das árvores


do paralelo renasceu andy warhol. fitou os meus olhos e lembrou-se que me havia segredado ao ouvido que preferia a liz taylor sobre o rectângulo prateado à marilyn sobre o circulo dourado, e como havia partilhado aquele momento connosco. voei sob a sombra das árvores altas premiada com aquele momento. oposto, de perna esquerda flectida e mãos nos bolsos, teve pena de nós. havia-te acompanhado quando o foste visitar a serralves e ficou contigo enlevado pela tua admiração. não esperava um confronto daqueles. cego do todo, não pode ver os nobres em linha atentos à perfeição das nossas palavras, e como eram difusos estes senhores. viu-nos e sentiu o nosso silêncio. foste embora e andy ficou comigo. mas não por muito tempo. não conseguiu tolerar sentir o meu sofrimento.



espelho da alma de muitos por vezes, quando desejo fugir de deus e do peso com que nos carrega penso esconder-me numa ilha, só, e que bem ficaria eu, e logo a seguir imagino que estou isolada de tudo e cada vez mais próxima como a fugir para deus. e penso, não vale a pena. fugir para uma ilha. vale mais a pena meditar sobre a imagem da ilha. e de como é impossível fugir de deus.


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