foi pelo filho deitada na superfície de água quente com as mãos sobre o ventre e as pernas cruzadas. abriu a boca da testa para a luz que bebeu e engoliu no corpo agora iluminado e morno. euterpe apoiada no pé esquerdo e o seu pequeno anjo menino envoltos por cachos de caracóis nos cabelos avivaram os quatro instrumentos e entoaram a terceira sinfonia de górecki. os pés descalços. só visto o regozijo do anjo. deus não deveria beijá-la durante este sono. não. isso seria demais. e os tons soaram mais alto. a multidão que a ouvia cantar pairou sobre o céu paredes casca de ovo semente lançada aos corações via ouvidos. que delícia o som das cordas humanas, o ritmo natural do corpo, a tranquilidade de quem é serena e depois as harpas dedilhadas e os pensamentos das mulheres flutuando sobre as velas acesas. e depois mais alto. cada vez mais alto. e com os pensamentos flutuaram elas também naqueles trajes exuberantes cantando. e o céu por detrás das ruínas. e as vozes múltiplas de uma só mulher de braços abertos em roda viva. cantando lá de longe. ausente de si corpo perto voz lá no céu.
Só para dizer que gostamos muito, vamos levar para ler à noite. Beijinhos.....
"que delícia o som das cordas humanas" lindo! como sempre...
beatriz obrigado pelo comentário de outro dia n'O Povo... eterneceu-me e quase, quase me levou às lágrimas... sabes que volto, até breve!
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boa leitura. gostei muito da ideia de que vão ler os textos à noite...
Por um momento fiquei gélida e bloqueada
Não estava ali, e as minhas recordações construiram-se com o que tinha e com o que me faltava...
lembras-te daquele comentário enormíssimo? pois bem, fui certamente redutor no que disse... tenho lido e relido os teus textos e apercebi-me duma coisa...o teu mundo, esse mundo quase de sonho que escreves é do fantástico... sinto que há nele referências quotidianas mas as outras, as clássicas, atribuem-lhe um cenário e um tempo quase mitológicos (euterpe, magnet, dante, beatrice...etc)... apesar de não concordares continuo a encontrar as três pessoas no texto, certamente sou eu apenas que as quero ver...
não sinto quando escreves que te prendes a algo, pelo contrário...como dizia a alexandra no post dela, sinto-te livre e quero-te livre....só assim as coisas fazem algum sentido... no entanto, nesse mundo que escreves,há o clássico e o anti-clássico...há o Homem e há o Mito que vive uma vida emprestada de alguem!? (talvez o "tu" a que me referia)
beijo grande....sabes que volto... é sempre bom trocar comentários contigo
ps. já agora conseguiste ler o Ulisses...pfffffffff não imaginas a inveja... há quase que uma resistência subconsciente em mim sempre que pego naquele livro...
beijos
Fiquei realmente emocionado pela qualidade dos teus textos, são impressionantes.
Temos todos que agradecer que os tenhas partilhado connosco, parabéns!
P.S: vê o meu blog, arquitectosaliados.blogspot.com - não se compara nada com o teu, mas o objectivo é diferente.
obrigada pedro! já fui ver o vosso blog.
não sei quem é a anónima mas está sintonizada...
victor, eu também não consegui ler o ulisses de joyce!
como te compreendo...não dá, não havia necessidade é demais. talvez daqui por algum tempo. mas gostei muito do monólogo feminino final.impulsionou-me a escrever inclusivé o poesis publica. gosto daquele ritmo e constante alusão de memórias e percepção sem preconceito.
tentei ler o ulisses em simultâneo com a eneida de vergilio, e então aí foi mesmo flagrante. preferi a eneida porque senti maior elevação.
que me perdoem os críticos. sei que muitos acham que a literatura moderna e contemporânea tem como um dos seus pais, joyce. o que é bem verdade e digno de mérito. mas rendo-me sempre aos clássicos.
eu acredito que ser moderno implica saber emergir dos clássicos. foi o que ele fez. mas continuo na dúvida e sem saber se os superamos...
este é o grande desafio. o que é que pudemos acrescentar ao que já nos deixaram?
talvez uma visão mais real...
acho que é isto o que pretendo no poesis publica. dizer que as figuras dos mitos estão entre nós. que são e foram realidade como nós. e não querendo retirar o valor a quem de direito o tem, no conjunto valemos todos o mesmo. esvaziamo-nos para finalmente nos darmos a esse conjunto...
bem... parece que percebi alguma coisa então... queres saber a melhor...promete que não te ris... eu n li o Joyce, mas já li 4 do Proust Hehehe
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proust é outro dos pais. que ainda não li...aconselhas-me algum livro dele?
...não apagues os comentários...não gosto de ver o que fica...
eu nunca apaguei um comentário... só queria evitar que lesses duas vezes a mesma coisa! é que nestas coisas internéticas ainda sou um bocado, como dizer, atado.
quanto à tua pergunta lê o "Em Busca do Tempo Perdido"... há uma nova edição bastante boa a nível de tradução, acho que do pedro tamen que aconselho... eu li os primeiros quatro volumes da obra: "No caminho de Swan", "Á sombra das raparigas em flor", "O caminho de Guermantes" e "Sodoma e Gomorra"... aconselho que leias por ordem o "Em busca do tempo perdido", são 7 volumes, pois à medida que vais lendo podes assistir ao crescimento dos personagens... acredita nunca vi melhor dissecador do tempo e da mente do que o Proust... é fascinante.
vou registar a dica. obrigada. já reparei, pelo tipo de posts que editas no ´o povo é bom tipo´curiosamente uma expressão que já havia sobrevoado a minha mente, que lês muito. vai ser bom trocar ideias contigo.