costumavam passar longas horas na biblioteca de paredes brancas a ver os fluídos esbranquiçados à volta dos corpos e as zonas de principal irradiação de cada um. tu tens uma ligação directa com deus, dizia ele. porque é que não irradias? não escondas. as mãos e os dedos longos e nodosos de lamas movimentavam-se a lenta velocidade pois o desenho que aqueles movimentos traçavam devia ser exacto. no comboio antes de adormecer e do anjo negro a ter desenhado depois de lhe ter dito que o seu cavalo era preto, como ele, conduziu-os individualmente a um cenário próprio criado naquele momento por cada um estimulados pelas suas palavras e pelo desejo de encontrar apenas a resposta às suas interrogações. lamas assustado reparou que ísis sabia que vida ía ter. dentro do seu cubo suspenso no ar no deserto e revestido por superfícies e planos transparentes, translúcidos e brancos, com um sorriso, ísis observava ao longe um cavalo branco que corria cheio de vida sem parar da esquerda para a direita e que de vez em quando cavalgava até se aproximar do seu cubo. passava-lhe por baixo sem o ver. julgou que aquele cavalo era seu e que apenas ainda não a conhecia. sentiu profundamente que o seu cavalo era o branco que continuou a correr de um lado para o outro a levantar a areia das dunas sem parar. por vezes parecia conduzir um carro romano que nem sempre viu. das seguintes vezes que o cavalo branco se aproximou do seu cubo suspenso no ar, estranhou que não a visse. pensou que talvez nem sequer a procurasse. na entrada no cubo, ao centro da face inferior, estava colocada uma escada de madeira. ao fundo da escada encontrava-se um cavalo castanho quieto estático meigo. à espera. durante anos interpretou aquele cenário de uma forma. e chegou mesmo a desejar que o cavalo castanho fosse embora e desistisse de esperar. continuou suspensa dentro do seu cubo sempre a acreditar que o seu era o cavalo branco. quando a beatriz morreu e o pai lhe disse que o sol chamava por ela reparou que na entrada da capela se encontrava um cavalo branco. e foi quando percebeu que o cavalo castanho que já lá estava à algum tempo esse sim, era o seu.
é mesmo assim, por vezes temos o cavalo castanho parado junto de nós e dificilmente o vemos. ele dorme connosco, passeia connosco, está sempre lá como uma sombra protectora e nós, nós insistimos em dizer que ele não existe e que o nosso cavalo é o cavalo branco. tudo isso acontece quando a vida é para nós apenas um sono, até ao dia em que acordamos e o cavalo castanho, sempre sereno, nos diz: só tu não me vias. e como beatriz morremos e recomeçamos uma nova vida, mais cheia de tudo.