passou-lhe os dedos pelos caracóis dos cabelos. estava de passagem, já no fim da subida às estrelas, mas ainda a tempo de dizer que o fino grão de luz prata azul branco estrelado que reluzia no canto do quarto e sobre o livro que lia, era daquela criança que em tempos a havia alertado para que não adiasse mais o seu dever. devolver as sementes que não germinaram. surpresa pela rápida lucidez pois, tal como beatriz, havia deixado o corpo, há treze dias apenas. havia tido um grande funeral assitido por milhares de pessoas, e já se encontrava sóbria e pronta para continuar o seu caminho, o que é admirável. percebeu que fazia parte daquele grupo de entidades que nos passam as mãos pelos caracóis dos cabelos, e lembrou-se da noite em que julgou ouvir extra-terrenos em ligação radio com cortes de corrente e língua desconhecida assitida pelo mestre hindu invisível que a acompanhava nas posturas yoga na infância. com os olhos do corpo e da mente cerrados para não presenciar a fealdade dos opositores sentiu a mão da criança na testa a refrescar-lhe os pensamentos, a cabeça encostada ao seu peito menino, em repouso e protegida, também pela mensagem acabada de receber, naquela voz fina de anjo menina, dita na extremidade dos lábios. e sobre o livro reluziu novamente, perto o suficiente para libertar um sorriso, onde thomas moore registara a descrição de rafael da ilha que utopos criou quando mandou cortar o istmo que a ligava ao continente e abraxa se tornou a ilha da utopia. nas cinquenta e quatro cidades que contera onde, tudo era perfeitamente idêntico modificado apenas pelas exigências das circunstâncias, os utopianos sabiam que quando os habitantes da ilha eram levados pela morte, se mantinham em convívio com eles, os que continuavam no corpo, ainda por uns tempos até que estivessem limpos para ascender aos céus. e assim continuavam as suas vidas em convivência com os que haviam partido, em naturalidade, sem o medo que a nossa civilização nos incutiu até aos dias de hoje, como se o nosso medo fosse um espelho que assusta amedronta e prende, os que alcançaram a outra vida, agora livres para prosseguir caminho e vagar para em voo plano passear no céu enquanto nos observam aqui pousados.
temo que pela ignorância do homem as crianças deixem de sorrir... se o fizerem é porque o tal medo as tingiu de preto e temo, temo muito, que lhes seja anulada a liberdade de prosseguirem o caminho...
até breve :)