e eu no ouvido interno a dizer-lhe
18.3.05 por Beatriz Seabra | Enviar este post
e desejou colocar esta coisa que os prendia no fundo do oceano. diluí-la entre os peixes. ínfima nada poderia corromper. meu amor, minha dor, ácido corrosivo que me furas a pedra a arder de cura. apenas queria dizer-lhe como o amava e como precisava da sua companhia. apenas precisava de o dizer numa atitude disrruptiva senão tudo se poderia tornar num inferno. mostrou-lhe a praça ampla e larga, a construção em volta baixa e modesta. o coreto vazio tornava a música ausente. a água faltava, ou porque o mar não banhava a areia ou porque não era necessária à melhor preparação dos alimentos. a terra poderia secar, era um risco. mesmo assim preferia tê-lo por perto por companhia, fosse como fosse. mas não podia ser. um amor assim é bom de viver, apesar das noites serem vazias e os dias por vezes como gritos do inferno. que não existe. já no fim, à porta do lar, voltou a dor agressiva no centro do peito, e sopraram-lhe ao ouvido, ele não está a dizer o que pensa. ainda não o sente. e aquela mulher gorda que editava e vendia livros à mesa no salão, na idade média vendia canecas de bebida ao balcão de um tasco, no rés do chão de um bordel animado no andar de cima. e ela era um homem calmo de olhos castanhos e meigos, sentado à mesa do tasco e que ignorava a escada que subia para o primeiro andar. enquanto isso o guerreiro levou isis ao cimo do telhado. era preciso captar uma imagem do casco velho da cidade. puxou-a para a cumeeira e firme segurou-lhe nas mãos. isis sentiu a mente voar, sabia que não ía cair. mas que havia caído no passado. não tenhas medo disse-lhe o guerreiro, agarra-te bem às minhas mãos. e eu no ouvido interno a dizer-lhe para não temer, pois desta vez não fugia de alguém, nem estava a morrer de amor.
parece-me que isis quer viver livremente, tão livre como vivem os pássaros. isis quer dizer que os anzóis não a prendem, nem o passado, nem o amor porque não morre por ele. talvez isis saiba até mais do que o guerreiro, para ela o inferno não existe, ou ela forçosamente quer acreditar que ele não existe, ou imagina que ele existiu no passado, lá longe, tapado pelo lençol do presente...
talvez isis espere apenas, ausente. talvez isis saiba já tantas coisas e as equacione constantemente e as pondere e as decida com a razão. talvez isis saiba tudo isso. talvez isis já não acredite que se pode surpreender: "e eu no ouvido interno a dizer-lhe para não temer, pois desta vez não fugia de alguém, nem estava a morrer de amor."; quando o medo da surpresa poderá ser o pavio do amor.
isis deveria temer, pois só assim seria verdadeiramente livre. foi no medo da escolha que o alquimista mais perto se viu do ouro.
até breve...
(este texto fez-me reflectir bastante, já o li várias vezes e só agora arrisquei um comentário... beijo)
não sei porquê mas este texto deu-me vontade de reler outro texto teu, a saber: "esse sim, era o seu"
é sempre bom ler os teus comentários. acho que a beatriz apenas precisa de escrever estas coisas para depois isis poder ser livre. a ver vamos...