o sal na boca. a necessidade de respirar claro e contínuo a sobriedade da luz do movimento da água que a envolveu. e a frescura que libertou quando chegou à terra e apoiou o pé, branca outra vez para ver qual o estado das coisas atrás do véu, pó que se lançou e não deixou ver tudo. porque havia algo no meio, espaço quântico largo e curto, a fazer olhar para os lados como para o infinito. caiu na vertical pelo queixo abaixo, os olhos puxados para cima pela pele, o lago em frente, a água no meio o sal do mar, as pedras na língua a abrir os olhos, as folhas soltas, núcleo de arremesso a resgatar a lucidez. entrou naquele fogo. levaram-na a passear durante a noite, seguraram-lhe a mão que agarrou sem saber de quem quando já confiante percebeu que quem a guiava era cego e a tocava à procura de apoio, como para pousar os pés. branca, a atravessar o fogo caminhando sobre o sal que levou à boca, a multidão cega a travar-lhe o passo. nos olhos esferas negras e grandes a fugir dos espelhos. cegos a travar-lhe o passo. e o céu baixou os olhos e encarou o mar, espelho dos deuses porque não sabemos se haverá espelhos no céu, talvez só de imaginar. e nós, reflexo do que somos a estreitecer a distância entre os dois mundos, opostos em pirâmide, vértices fundidos para a passagem dos que fazem as viajens criando pontes e faróis de um mundo para o outro, só de imaginar, a fugir dos espelhos para não se verem nus nas marcas da pele deixadas nos corpos pelos golpes ofendidos à alma. e eles cegos a travar-lhe o passo. o céu com vergonha de olhar o espelho do mar, e eles, lá sem vergonha, a julgar reflectir o céu. branca de novo fechou aquele fogo nas mãos cobertas de sal, agora mergulhadas no mar a lavar o espelho do céu.
o texto é lindo Beatriz...
não deixa de ter a sua piada, mas hoje é o segundo post da blogosfera que leio e revejo o meu estado de espírito actual, o outro é a foto do N.R. no Isn´t it any wonder?
(e eles cegos a travar-lhe o passo) não imaginas o que isto significa para mim neste momento...
obrigado
beijo