voo para longe muito longe de tudo. lamento as almas que não ascendem ao céu, como lamento, e que se manifestam de forma obstinada e insubmissa. devem-nos respeito. deviam ocupar-se apenas de si mesmas. mas não. tomam-nos de assalto por momentos, loucas e cegas, dizem. rosnam-se em nós, dão-nos os seus tiques por momentos, libertam os seus cheiros, comem nas nossas bocas, julgam que sim, usam os nossos corpos, falam em nós, e se tardam poderão ficar sem forma, mancha negra que paira suspensa e se multiplica nas tardes de verão acima de nós. ai se as vissemos. deus guarda-nos nesta cegueira. não sei se bem se mal. estamos todos sujeitos a não saber morrer e ascender quando chegar a hora. e se teimarmos em não querer saber poderemos ver-nos surgir nos mundos onde não se vê o céu e tudo é catacumba submersa debaixo de terra, corredores de dor, e nós lá irrascíveis e inquebráveis, desnecessariamente. nascemos para nos civilizarmos, porque quando soltos do corpo, somos rebeldes, muito rebeldes e insubmissos. quando afinal somos apenas efémeros apesar de temporariamente nos darem aparente autonomia, afinal dependente. de nada valerá conter-se numa existência mansa quando na verdade se arde de revolta e insubmissão e desreipeito por outros. que a mansidão seja genuína verdade e não raiva submersa, por vezes desconhecida que nos possa tomar de repente. voo para longe o mais alto possível talvez no cimo de uma montanha mas não sei se será suficiente o ar fresco da montanha para espiritualizar a mente, já não basta. só cada vez mais alto.
muito bom e muito pertinente este texto... como dizes, só cada vez mais alto para conseguirmos respirar um ar rarefeito... e há tanta nuvem negra à nossa volta!
Profundo este teu texto... mas Feliz Páscoa:)
Bjs.
não consegui entrar no teu jardim dinverno, charlotte. deixo aqui uma mensagem de boa páscoa para ti e para todos. beijos grandes.